quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fernando Kaxassa


Leiam na íntegra a entrevista concedida por Fernando José da Silva, o Kaxassa (criador e mantenedor do Cineclube Cauim de Ribeirão Preto) para o meu livro recém-lançado, intitulado "Viver Cinema: o Cineclube Cauim e seus trinta anos de História", resultado da minha pesquisa de conclusão de curso para a licenciatura em História pelo Centro Universitário Barão de Mauá. O lançamento aconteceu na 12° edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no dia 29 de maio.


ENTREVISTA FERNANDO KAXASSA – 27 de janeiro de 2012






Dirigiu e encenou peças teatrais com grupos amadores de Barretos e Ribeirão Preto entre ’74 e ’78; Sócio-fundador e 1° Secretário do Clube de Cinema de Ribeirão Preto em 1979 e 1° semestre de 80; Aluno do curso de Ciências Sociais da UNESP de Araraquara desde 79; 2° Secretário do Cine-Foto Clube de Ribeirão Preto em 79 e 80; programador e conselheiro do Zoom Cine Clube de Araraquara em 79; Atualmente colabora com vários cineclubes do estado de São Paulo. Fotógrafo. Barretense.

O que você pensa quando olha para o passado?

Penso que eu perdi muito tempo da minha vida, que eu poderia ter bebido mais (risos). Brincadeira, eu penso que isso é muito legal... Era uma loucura, a gente não tinha nenhuma pretensão e isso deu certo.

Quando transformou isso num meio de vida?

Até hoje eu não transformei. Até hoje, se eu não batalhar outras coisas, eu não consigo viver. Do Cauim não se vive. Eu tenho que fazer programa de TV... Por exemplo, agora (na hora da entrevista) eu vou gravar quatro programas. Já fiz coisa à beça, como produtor... Do Cauim mesmo, só pauleira. Agora preciso colocar o programa pra gravar porque senão, já viu...

Comente sobre sua infância e adolescência quanto à cultura.

Eu nasci em Barretos, na época, uma cidade bem pequenininha. Já tinha essa tradição de folclore, muito mais do que hoje, quando dizemos “terra do peão”, quando a cidade se transformou em algo pra turistas. Minha infância todinha foi marcada por essas festas tradicionais, de congadas, folias de reis, etc. Eu passava as férias em Jaborandi, com meus avos. Era uma coisa engraçada, porque era uma família de negros que “adotou” um loiro de olho azul, meu pai. Uma coisa interessante nisso tudo é que até Jaborandi tinha cinema. Barretos tinha três cinemas: o Cine Barretos, o Tetéia e o Centenário e meu padrinho era dono desses dois, portanto eu não pagava entrada. Meu vizinho também não pagava e a gente ia ao cinema todo dia, o tempo todo.  O forte mesmo era matinê. Nos sábados e domingos tinha matinal às dez da manhã e matinê às duas em um dos cinemas; quatro e meia da tarde em outro. Eram três sessões por dia. Eu brinco muito com o Marco Lucchetti, porque acho que sou o brasileiro que mais viu western. Barretos também sempre teve uma tradição muito forte de teatro. De Barretos veio Jorge Andrade (que depois escreveu novelas para a Globo); o Luiz Carlos Arutim (que participou do meu primeiro filme e tinha acabado de ganhar o prêmio Molière); Américo Rosário de Souza. Eu era uma criança que morava em frente ao José Expedito Marques, que morreu não faz muitos anos, que era o maior incentivador de teatro de Barretos. Era professor, trabalhava e escrevia teatro, vivia teatro 24 horas por dia. Eu era bem mais novo; me lembro de ver os ensaios do Expedito que eram no colégio que funcionava em frente à farmácia do meu pai, eu vi muito ensaio; e com sete, oito anos, começaram a me chamar para encenar peças. Eu brinco e falo que o primeiro papel que eu fiz foi o menino Jesus, portanto, comecei mal. Fui me apaixonando por essas coisas aos poucos.

Em Barretos não existia muito essa coisa de televisão, lá nem pegava Globo. Isso em 1973, 1974... A Globo só funcionava em um bar chamado Caju, as outras TVs só tinham a Rede Tupi. E durante semana, a programação da Tupi só começava depois das quatro horas da tarde; nós íamos pra escola e à tarde a gente trabalhava. Meu pai morreu muito cedo, então a gente começou a trabalhar cedo. Depois começamos a criar o hábito de ver novelas, mas isso foi bem depois. Mas, a Rede Tupi tinha uma sessão de sábado que se chamava Sessão Comédia Brasileira. Foi lá que vi pela primeira vez o filme O Grande Momento, do Roberto Santos, e esse filme pirou minha vida. Vi A Hora e a vez de Augusto Matraga também, mas o filme do Roberto Santos foi o que mudou a minha vida por inteiro.  Eu tinha 9, 10 anos. Eu sempre odiei futebol, nunca fiz um gol. O Sócrates brincava comigo, ele até escreveu na revista Carta Capital um artigo a meu respeito dizendo que eu era o centro-avante que nunca fez um gol na vida. A minha vida eram as artes. Quando o meu pai morreu a gente vendeu a farmácia que tínhamos e eu estava com 13, 14 anos, na época. Eu já tinha encasquetado que queria seguir esse caminho das artes.

Na escola eu descobri depois de muitos anos que eu tinha dislexia e só gostava de estudar História. Eu queria juntar essas duas paixões de algum jeito, queria era trabalhar com isso. Eu já tinha uma irmã que morava em Ribeirão Preto e vir pra cá foi fácil. Quando cheguei aqui, dei de cara com nomes como o Vacarinni. A força de Ribeirão eram as artes plásticas. E a boemia. A boemia me abriu espaço pra muitas coisas porque eu conheci muita gente nas ruas. E logo comecei a fazer parte dos grupos marginais de teatro. Eu sempre fui muito tímido e antes de entrar nos palcos eu tomava uma cachacinha. Na minha adolescência, já adotei o nome, porque o pessoal me conhecia como “o Fernando da cachaça”. Eu sempre fui muito novo e muito velho. Era uma coisa esquisita, aconteceu isso com o Sócrates também, o tempo melhorou muito a gente. Eu era um cara que com 16, 17 anos você olhava pra mim e pensava que eu tinha 100 anos. Eu era muito magro, bebia muito... O tempo deu uma melhorada em mim. Sempre fui o mais novo dos grupos que formei. E com 16, 17 anos, eu já estava fundando o que viria a ser o Cauim. A minha adolescência foi formar o Cauim. Não me lembro de ter outro tipo de adolescência. O grupo já existia, mas o nome veio depois; da palavra Cauim, que aprendi com sete, oito anos e que achava a coisa mais linda do mundo. Ribeirão Preto foi fundamental pra minha formação enquanto pessoa porque aqui existia um grupo com uma causa em comum. Era uma ditadura militar e queríamos uma abertura.

Eu fiz supletivo, sempre estudei muito mal, por ser disléxico. Mesmo assim, fui fazer faculdade de Ciências Sociais com 17 anos. Fui pra Araraquara e fui direto para o Zoom Cineclube, por intermédio de um cara que tinha conhecido aqui em Ribeirão, o Paulo Pereira, ex-preso político por quatro anos e professor de Geografia, que já havia feito cursos de teatro comigo. Um dia ele me ligou e me perguntou o que eu faria em Araraquara e falou pra eu chegar lá e ir direto tomar conta do enorme cineclube que existia. Juntamos nossas forças: Zoom com Cauim.

Todos os que fizeram parte do Cauim no começo você já conhecia de antes?

Mais ou menos. O Fê, por exemplo, eu conheci porque namorávamos a mesma menina. Ele largou dela e foi pra Brasília, e ela ficou uns seis, sete meses sozinha. Foi quando começamos a namorar e ele tinha sido assistente de fotografia do Amêndola... Quando finalmente nos conhecemos eu pensei que fosse apanhar, quando na verdade, foi um complemento. Ele era fotógrafo e precisava de gente que soubesse unir grupos distintos, eu era disléxico... No meu primeiro ano de faculdade eu conheci o Marcos Valério Diamantino, e esse cara mudou minha vida. A gente tinha a mesma idade, tínhamos morado na mesma cidade e ainda não nos conhecíamos. Ele largou mão das Ciências Sociais lá em Araraquara e veio fazer Jornalismo na UNAERP – foi considerado o melhor texto publicitário de Ribeirão. Ganhava todo tipo de prêmio; escrevia muito bem, escreve muito bem. Voltou pra Barretos e hoje trabalha na TV Soares de lá. Ele era o que faltava para nossa dupla: o Fê e eu, doidos; e o Marcos a cabeça que pensava por nós dois, pois ele não bebia... Enquanto eu tocava o bar do D.A. ele voltava pra casa e escrevia. A gente trocava idéias de madrugada, pois morávamos na mesma casa. O Fê sempre desenhava o que a gente ia fazer, fazia storyboards... Daí vem a origem do grupo, de nós três. Mas, no mesmo andamento, foi entrando muita gente, pelas atividades de teatro; muita coisa de cinema. O grupo cresceu, a gente queria mudar o país. No começo, nosso objetivo era muito claro. A gente tinha como questão de honra derrubar a ditadura militar. A gente só juntou aquele grupo todo porque nós pensávamos que poderia haver revolução pela cultura. O objetivo nosso era fazer cinema em primeira etapa, mas ao mesmo tempo, tinha esse negócio da ditadura. O Cineclube era o que mantinha a gente em contato com o povo. Muitos amigos meus queriam ser cineastas; eu sempre gostei muito de fazer cinema, dirigi não sei quantas mil propagandas; mas eu gosto muito de cineclube, do movimento cultural. Quando o povo começou a ir pra São Paulo, o Roberto Santos chegou pra mim e disse “Se você for embora ficará um rombo de cineclube no interior. Não queria que fosse você a ir para o sacrifício, porque você tem o dom natural do cineclube”. Daí, eu fiquei. Foi quando aluguei a sala da Rua Lafaiete, 374.

E o Lucchetti?

Eu não conhecia o Lucchetti porque ele morava no Rio. Foi o maior barato, porque ele veio pra Ribeirão e eu ainda não o conhecia. Muitas pessoas falavam que nós precisávamos conhecê-lo e nós fomos para o Rio atrás dele. Quando a gente chegou lá demos de cara com o Alex Viany, pai do Cinema Novo; o Wilson Grey e eles disseram que ele morava em Ribeirão. “Ele era muito tímido, ficou cinco anos escrevendo pra mim morando no Rio, mas a gente nunca se encontrava”. Daí eu fiquei louco. Voltei, bati lá na casa dele e no segundo dia que a gente se conhecia ele entrou e ficou. Ele e o filho dele, o Marquinho, que tá aqui até hoje. No caso deles, foi o contrário. O cineclube já existia e eles nunca saíram dele. O Cauim nunca parou: foi crescendo, veio o Collor; fechamos a sala, daí veio outra... O movimento é contínuo.

Você não consegue sobreviver só do Cauim...

Sobreviver só com o Cauim é impossível, o Cauim é uma ONG. O Cauim tem custo. Ele, hoje, custa 160 mil reais. Se você não tiver patrocinador, você não tira isso. As pessoas que trabalham com o Cauim trabalham em outras coisas. O Odônio é empresário, o Sócrates vivia de palestras, eu faço programa de televisão... Dentro do Cauim são só os funcionários. O Cauim é uma coisa pra você dedicar a vida a ele, não ele a você (risos). O maior barato é a série de outras coisas que o Cauim faz; as outras parcerias. Pra nos mantermos mesmo, só trabalhando em outras áreas, ralando... Ralando não, porque fazer televisão, pra mim, é uma delícia. Antigamente, não existia esse negócio de lei. Quando começamos não existia nada. Antigamente, era diferente. Você alugava uma sala de cinema de 300 lugares para passar filmes que eles chamavam “de arte”. Graças, a Deus não, porque sou ateu (risos), mas hoje você vai à locadora e encontra tudo. O cineclube tinha essa função de apresentar esses filmes de arte. Nessa época, tinha um público que pagava e que mantinha o espaço funcionando. A coisa toda era sustentada somente pela bilheteria. Hoje é impossível você fazer isso. No lugar onde hoje funciona um cinema de 800 lugares poderia funcionar uma igreja, um supermercado, um banco; coisas que dão mais lucro. Na verdade, o custo deste projeto cultural cresceu muito.

Hoje vocês têm coisas que não são relacionadas diretamente ao cinema...

Na verdade, eu acho que isso poderia passar pela cabeça das pessoas, inclusive do Gilberto, que era membro do grupo, por eu ser um apaixonado por cinema e ser mais ou menos o líder do grupo. Mas as pessoas envolvidas com o Cauim sempre gostaram de outras coisas que não o cinema, como o teatro e a música. O cinema é o que mais marca. Por mais que o Cauim faça e participe de outros projetos, o cinema é que fica marcado, porque lá vão mais de mil pessoas; e hoje nós precisamos salvar o cinema para a população carente. Olha a loucura que nós inventamos... A maior mentira que existe no Brasil é aquela de que, os americanos, que distribuem os filmes no país, pra justificarem o aumento do ingresso de setenta centavos para três dólares, precisaram tirar os cinemas dos centros das cidades e ir pra shoppings. O povão não abandonou o cinema; o cinema que abandonou o povão. Nós conversamos isso com o Gilberto Gil, na época em que ele era ministro da Cultura, via Leopoldo Nunes, de que precisávamos resgatar o cineclube. “Precisamos abrir o cinema pra todo mundo; resgatar o público de cinema. Depois que ele estiver dentro, aí começar cursos de produção”. Tem um punhado de gente no Cauim produzindo, tem que ter talento. Na verdade, o meu principio nunca foi o de produzir. Pode ter sido no começo, mas hoje, a minha paixão é arte e educação. Quando começamos a ver que a escola poderia freqüentar o cinema e lá dentro passar filmes, eu caí de cabeça. Sempre gostei do movimento cultural. Quando produzo um programa isso é o que importa pra mim, naquele momento. O que eu gosto do Cauim é o alcance social que ele tem. Por que existe o curso de culinária dentro do Cauim? Não é porque gostamos de comer, ao contrário. É porque estávamos um dia com um grupo de pais de alunos que participam do Templo da Cidadania e eles precisavam comer, aliás, eles participavam das atividades por causa do lanche que era servido. É por isso que conseguimos atrair mais de mil pessoas por dia, às vezes, quatro mil pessoas, dentro de um espaço fechado.

Eu vou te falar a verdade: da minha cabeça, o cineclube era uma coisa passageira, de cinco anos, mais ou menos. Mesmo porque, nunca pensei que fosse viver mais do que 25 anos. Eu achava que ia morrer logo; eu tinha uma saúde precária, bebia como um louco, fumava quatro maços de cigarro por dia. Na minha cabeça, eu não tinha essa visão de futuro, as coisas eram pra enquanto desse tempo de fazê-las. Se eu não ia fazer 30 anos, por que o Cauim faria? Nada mudou, eu cheguei aos 51 anos de idade. Tive Hepatite B, parei um ano de beber, voltei a beber... Eu fui levando a vida e o Cauim faz parte disso tudo. Fecho hoje; abro amanhã. Acaba o dinheiro, vamos correndo atrás... Eu não paro pra pensar o que o Cauim vai ser hoje ou amanhã. Tudo é maravilhoso e a gente faz parte de tudo isso. Aonde isso nos levará eu não sei. Eu tenho grandes idéias que já foram discutidas com o Gilberto, por exemplo, como uma Universidade Livre de Cidadania; a construção de um “cinema do lixo” – desde produção até chegar à cadeira do cinema, toda de material do lixo.

Eu não sei bater máquina; não sei usar computador. Eu escrevo a lápis. A minha cabeça não para, são 24 horas pensando em projetos. Vários amigos meus dizem “Kaxassa, você é o único cara chato no mundo que não para de pensar em projeto”. Fazemos coisas loucas, como passar três dias inteiros bebendo e no final desses três dias, estou pensando... Sou o vagabundo que mais trabalha no mundo. Eu vivo por e para o Cauim.

O processo de conhecer as pessoas foi algo que aconteceu naturalmente?

Se você não for atrás das pessoas, não vira nada. Hoje em dia tocar o Cauim é fácil, todos conhecem as pessoas que estão envolvidas com ele. No começo, quando éramos o Fê e eu, é que era difícil. Você tinha que bater na casa das pessoas com a cara de pau de costume. Usávamos barbas de hippie, roupas de hippie, fumávamos o mesmo cigarro porque não tínhamos dinheiro. Mas o que não tínhamos em dinheiro a gente tinha de consciência: Ou a gente fala com esse pessoal ou não tem Cauim. Eu tomava três, quatro copos de cachaça e ia; nem me tocava que estava com aquele bafão. Era tudo na cara-dura, uma cara de pau tremenda porque era tudo vontade de conhecer as pessoas. Eu queria conhecer o Roberto Santos, então, bati na porta dele e falei que queria conhecê-lo. Era tudo assim.

E o cineclube sempre existiu no mesmo lugar?

O cineclube não tinha lugar fixo no começo. Passávamos os filmes nas escolas, na Barão de Mauá, no COC, na praça; era tudo em 16 mm. Depois tivemos o Cineclube Ribeirão Preto, que alugavam uma vez por semana em cada cinema. Cine São Paulo, etc. Depois alugamos a Rua Lafaiete, 1084, onde hoje funciona o Ribeirão em Cena. Ficamos lá até 1981. Depois nos mudamos pra uns números pra baixo, 374, onde hoje funciona uma igreja. Ficamos até o Collor, quando fomos montar para o Estado as Oficinas Culturais. O Fernando Morais, na época secretário estadual da Cultura, chamou a gente pra fazer essas Oficinas. Montamos no Espaço Candido Portinari, que existe até hoje. Depois voltamos com o Banco Ribeirão, a Agência Ribeirão, que funcionou até agora. Aqui, no Templo da Cidadania, estamos há 10 anos. Era uma casa de família, que alugamos para ser a sede de tudo. O Cauim é só a sala de cinema. Estou lá bem menos do que eu gostaria de estar; porque fico mais em bancos, secretarias e prefeitura pra pedir dinheiro. Vou à Prefeitura fazer projetos, etc.

Em 33 anos, você se arrepende de alguma coisa?

Puta que pariu, cara. Não tenho do que me arrepender. Minha vida é pra arriscar. Eu nunca tive planos, eu nunca pensei “nós vamos fundar o Cauim para daqui um ano comprar uma sala”; meu plano é o dia-a-dia. O passado eu acho chato; não tenho saudades, não sou saudosista. Eu tenho saudade, sim, dos amigos que eu perdi. Do Canarinho, do Sócrates. Eu não consigo entender que um morreu há quatro anos, o outro há dois meses, isso eu não me conformo. Isso me magoa profundamente, eu acho a maior injustiça do mundo. Agora, do passado, eu não tenho saudades. Pra quem vive a minha vida, não dá pra ter planos futuros. Se eu fosse engenheiro, por exemplo, seria a mesma coisa. Eu tenho um filho só; estou com a mãe dele tem 30 anos. Eu nunca pretendi ter filhos, por causa da vida louca que eu levava. Eu fui o cara que mais queimei coisas: meu pai me deixou uma casa, ganhei dinheiro com propaganda e eu não tenho nada. Não tenho carro, não tenho casa, e me sinto o cara mais feliz do mundo por não ter nada. Eu tenho uma vida que vou vivendo. Eu gosto de sonhar com as coisas que estão na minha frente, que estão acontecendo e eu vou caminhando com elas. Minha família hoje é muito diferente de mim, não consigo me enxergar no meu filho, levamos vidas opostas, porque ele nunca teve essa ligação com cinema. Ele vai fazer Biologia; a mãe dele fez UNICAMP... Nós lemos bastante juntos.

E Ribeirão Preto, em termos culturais? Hoje é diferente do que no passado?

Naquela época tinha uma coisa muito interessante. Há trinta anos, Ribeirão Preto consumia cultura com uma voracidade muito grande, porque não tinha opção. Era a ditadura militar, muita gente em Ribeirão foi presa, a cidade foi considerada “a Moscou brasileira”. Eu cheguei a ser preso por passar o filme Je Vous Salut Marie... Cheguei a ser preso por tráfico de uma coisa que eu detesto que é maconha. Eu posso beber o que for, que não tem problema. Basta um cigarro de maconha ser aceso perto de mim e eu passo mal, vomito... Me envolvi com outras drogas também, claro, afinal, eu fui júri de cinema em festivais nos anos 80, poxa. Mexia com tudo, mas nunca fui um viciado. Mesmo pra beber, tem que haver um ritual. Eu não sei beber pouco; tem que ser uns três, quatro dias bebendo. Eu gosto de bar. Ribeirão tinha esse público, atraía os estudantes. A gente falava que quando a abertura viesse a coisa ia ficar mais forte, quando, na verdade, não ficou. Cada um foi pra um lado e eu não culpo ninguém não, Ribeirão é uma cidade como qualquer outra: tem muita coisa legal e tem muita coisa chata. A USP, por exemplo, tinha que ser dentro da cidade. O cineclube, quando era na Mauá, era muito forte... Tinha a Suzete, o Lafaiete... O cineclube da Mauá nos dava dinheiro pra que pudéssemos chamar os palestrantes... Exibíamos os filmes no Ginásio Jumbão, de 400 lugares e sempre lotava. Vários e vários cineastas vieram por conta dos Diretórios Acadêmicos. E isso, hoje, acabou. Isso me deixa puto, me entristece mesmo. Apesar de eu nunca ter sido muito membro dos Movimentos Estudantis porque eu comecei muito cedo no Cauim; eu sempre gostei e admirei essas movimentações. Eu era sempre chamado pelas chapas a participar. Independente de quem ganhasse, eu cuidava do aspecto cultural da coisa toda.

O Cauim tinha outra coisa que era mais importante do que o movimento cultural em si. Na campanha das Diretas, o Cauim foi a urna que mais teve votos em Ribeirão Preto. Nós fomos o único movimento cultural do país que fez algo como “Cauim discute a Constituinte”. Sentamos o Cachorro, o Gilberto e eu e nos perguntamos se ninguém ia explicar essa coisa toda pro povo. O que aconteceu foi que chamamos todos os partidos políticos; colocamos sete ou oito temas em debate e todo dia tinha debate. Muitos dos que são políticos famosos são amigos do Cauim até hoje. O Fernando Morais, por exemplo, esteve aqui tem vinte dias.

O que acontece com a memória social de Ribeirão Preto?

O que acontece hoje não diz respeito somente a Ribeirão. Eu nunca tive computador e nunca vou ter, porque não sei ligar nem na tomada. Mas se você digita meu nome lá, existe coisa que eu nunca fiz e, no entanto, as pessoas estão levando a sério. Se eu fizesse tudo o que está lá eu teria uns 150 anos... Levam a sério piadas das quais fui protagonista. Muitas aconteceram, de fato, e as pessoas confiam muito cegamente. Eu vejo diariamente que tudo é uma questão de educação. Mexendo em papéis antigos aqui, eu ainda não mudei meu discurso. Eu e o Fê pastamos muito no começo... A gente não tinha dinheiro nem pra comer, a gente ia pra São Paulo e batia na porta da Embrafilme pra que eles passassem filmes pra gente, e assim era sempre. A gente via seis, sete filmes por dia, depois ia aos Museus e tinha a mesma postura... O acesso a tudo era muito ruim. Ribeirão era uma cidade muito cara, o acesso à cultura aqui era muito caro... Não existia biblioteca, ou livraria.

Hoje, para falar do Cauim, você pode procurar o Odônio, que está conosco há 15 anos, cuidando da parte chata, burocrática; o Cachorro, o Joel (que é o mais antigo, mas ele não fala), que está comigo desde o começo e é o cara que eu conheço há mais tempo aqui na cidade... Se você procurar por ele hoje ele não vai falar porque está bêbado. É um cara que conhece outro lado da história, pois nunca foi um fanático cultural, sempre agiu como um parceiro. O Cachorro é também um cara legal, pois é um grande poeta e a história da poesia dele atravessa o Cauim. Está sem beber, e está meio chato, meio parado. Com a morte do Sócrates, ficou pior. Ele é tio da Débora Duboc, que também entrou para o Cauim muito nova, com 13, 14 anos...  Na festa dos 30 anos do Cauim eu estava muito bêbado e não lembro nem de ter participado de tudo aquilo. Depois ainda viemos para o Templo da Cidadania, numa festa que durou dois dias inteiros. Depois que eu bebo muito, eu começo a ficar são. Você perdeu uma grande oportunidade de poder conversar com a pessoa que mais sabia de Cauim, que era o Magrão, que morreu. No Cauim a gente briga pra caralho, mas eu sou ditador. Tudo é muito rápido, não dá tempo de levarmos a briga adiante. Meu partido é o Cauim. Eu não vejo, hoje, nenhum tipo de ideologia na política brasileira.

Você se considera um sujeito político?

Totalmente, eu sou político 24 horas por dia. Tudo é política. Mas não tenho mais saco de fazer essa política partidária rasteira que existe no Brasil. Eu não posso ver dois amigos meus saindo de pau por causa da Dilma ou da Marina, que, pra falar a verdade, fazem parte de dois partidos com o contexto completamente viciado. Eu aprendi muito isso com o Betinho... Ele falava com o lixeiro, com o traficante... E comigo, não foi diferente. Eu quero o contato com o povo, com as crianças, através do meu trabalho. A sociedade está cheia de buracos e nós, enquanto seres políticos diferenciados, entramos no meio.

Como é a relação de vocês enquanto ONG com a prefeitura e secretarias de Ribeirão? Sempre houve respaldo?

É ótima nossa relação, e os projetos a gente sempre corre atrás. Antigamente a gente nem era recebido pelas pessoas. Em 33 anos de Cauim, 15 deles são de diálogo com a prefeitura. Mas, antigamente, a gente nem era recebido. A gente era doido... No governo do João Gilberto nós ganhamos uma concorrência para gravar a Semana do Prefeito. Na época eu nem ia filmar porque tinha acabado de brigar com o prefeito, e hoje nós somos amigos. Porque é muito fácil... O Cauim consegue manter uma sala (a maior sala de cinema do mundo), passando filmes de graça, pra todas as crianças e adolescentes de todas as escolas se sentirem bem. Se a prefeitura não entende isso, então, meu Deus!... Lógico que existem visões tacanhas, eu mesmo já briguei com muitos secretários que falavam que nossos projetos não levavam a nada. Mas, mesmo com as relações conturbadas que tive com alguns, as nossas idéias sempre vingaram.

O Fernando Kaxassa é um sujeito de muitos amigos e poucos inimigos?

Não sei. Se até o Chico Buarque descobriu pelo site dele que ele tem uma porção de gente que não gosta dele, imagine eu, então! E olha que é Chico Buarque, um cara legal pra caralho, que a gente conheceu porque ele era muito ligado ao Magrão. Eu o convidei para fazer a música-tema do filme do Sócrates... Eu tenho amigos pra caramba... E os inimigos, eu sei que existem. Mas eu sempre procurei trabalhar a amizade. Ninguém faz o movimento que eu faço cercado de amigos; ninguém ganha nada trabalhando comigo e olha que eu cobro muito. As pessoas que estão envolvidas com o Cauim já investiram muito dinheiro nele. O Mário Paiva, que é um cara muito importante para toda historia do Cauim, é um grande fotógrafo e foi ele quem me retirou do ostracismo e ficava me enchendo o saco 24 horas por dia para que eu retornasse. O Cauim existe hoje por causa dele, porque ele foi me buscar, quando eu estava muito xarope da cabeça.

Isso é uma coisa maluca. Estava conversando com um juiz de Direito lá fora, agora a pouco, e eu me lembro dele chegando ao Cauim moleque, com um livro debaixo do braço. Ele me mostrou o escrito e eu me apaixonei pelo que ele escreveu e nós resolvemos lançar pelo Cauim. Ele vendeu mais de mil exemplares do livro dele, numa época em que as pessoas participavam desses movimentos culturais. Era tudo muito legal. O Gilberto Abreu, mesmo... Sempre que ele tem coisa nova eu pergunto pra ele se não quer publicar. Ele chegou a vender três mil livros de uma vez, porque na época ele dava aula na Barão e no COC. Ficou com a mão arrebentada de tanto autografar. Eu tenho um selo que é o Monções, por uma questão de resolver problemas administrativos e burocráticos. Dentro do estatuto do Cauim, a ONG pode produzir livros e outros materiais culturais, sem qualquer fim lucrativo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre Canções e Emoções


Vamos falar de música. Daquelas músicas que você sabe que gosta, mas tem vergonha de admitir para você mesmo e para os outros. Todo mundo tem a sua lista secreta. E não estou falando dessas canções que assolam nossos rádios, televisões e mentes. Estou falando daquelas canções que não são ouvidas por ninguém a não ser você, em algum momento do dia, cantarolando baixinho ou pensando na danada. Do nada, elas aparecem e somem, mas causam um prazer enorme quando relembradas e sentidas. Vamos falar dos cantores populares, sem que, para isso, seja necessário discursar sobre momentos históricos, sociais, políticos, filosóficos do nosso país. Também não vamos buscar aqueles significados estapafúrdios que alguns especialistas tentam advertir; como, por exemplo, encontrar nas raízes dos artistas (leia-se suas origens humildes e desprovidas) as razões para as sutis tristezas de suas cantigas.

Vamos falar de emoção. Da emoção que arrebata, sem pedir licença ou com algum pudor. Vamos falar de tempos passados. Vamos falar de valores, de sentimentos fraternos e maternos, de sensualidade, de inocência e de paixão. Ah, a paixão que dilacera os corações mais frágeis, mais dóceis e menos preparados para as agruras da vida. Sim, estamos falando de tudo o que uma simples canção pode causar em quem a ouve. Estamos falando de cantores populares; aqueles que moram no rádio da sua empregada doméstica, que lava a louça todos os dias cantarolando cancioneiros populares e recordando momentos felizes e significativos de suas vidas. Estamos falando de ídolos tortos, caídos e, mesmo assim, adorados. Estamos falando dos sons que vêm da cozinha, que extrapolam panelas, chiados, batuques e questões de classe e posse. Estamos falando de artistas que colocam seus corações na boca e sangram poesia.

Sempre tive preconceitos com a chamada Jovem Guarda. Não por enxergá-los como alienados (nunca fui por este caminho que é de praxe para os críticos), mas por realizarem canções que não me agradam sonoramente. O disco de Martinha, “Como é que vai ficar”, de 1981, quebra esses paradigmas. Não porque ela - maior voz do cenário ao lado de Wanderléia - deixe de cantar o que é de seu feitio; mas por carregar nas melodias a sua principal arma. Todas as canções, independentes de letra ou entoação vocal, são lindas. E um disco que encerra com a melancolia e a tristeza de "Berço de Marcela" merece todo o crédito. Os preconceituosos que me perdoem!



Tomo a liberdade aqui que reproduzir o texto da contracapa do disco, recém-lançado pelo selo Warner: Ouvi-la é tornar-se vulnerável às mais profundas emoções vinculadas ao amor. Da ternura simples ao deslumbramento desencadeado em "Marcela", desdobra-se um universo emocional vibrante que o vai conduzindo num crescente envolvimento de amor. Sem colorido intelectualista, Martinha caminha com o ouvinte em direção ao seu ponto vital sensitivo, ali onde as feridas doem mais e as cicatrizes representam medalhas. Dos sulcos deste disco para as veias e artérias, corre uma singular transfusão de emoção pura que fará bem a qualquer pessoa.

Numa leva de relançamentos promovidos pela Warner (através do selo independente Discobertas), Presente de Deus, grande exemplar de Agnaldo Timóteo dos anos 1980 tem sua edição em cd. Finalmente poderemos fazer justiça com o cantor (adorado por muitos e odiado por tantos outros), dono de voz potente e interpretações marcantes - ainda que contestáveis. Remetamos-nos então ao ano de 1986. Era (e é) surpreendente ouvir versões de músicas-ícone, como "Hino ao Amor", imortalizada por Edith Piaf; "Suave é a Noite"; "Doeu" e "Poeira de Estrelas". Ainda temos as dores emocionais causadas pela música-título e por “Conselho de Pai”, que fecha o disco de forma avassaladora. Esqueçamos os preconceitos e ouçamos de mente aberta essas canções que reverberam em nossos corações e mentes.


Rubens


Minhas mãos tremiam ao chegar perto das teclas do telefone. Era fazer uma ligação e, talvez, tudo estivesse arruinado. Pensei que tanto trabalho para conseguir o número poderia resvalar em nada. Venci minha timidez ao me apresentar ao professor do curso da minha irmã na faculdade (filho daquele com o qual eu queria manter contato), e, agora, prestes a fazer a ligação, o meu coração batia acelerado no peito. Afinal, estaria realizando um sonho antigo, o de finalmente poder conhecer uma pessoa que eu admirava à distância, através de seus escritos e seus roteiros em inúmeros filmes que tinha assistido na infância e adolescência. Ser um estudante de jornalismo apaixonado por cinema deve ter suas vantagens, afinal, não fosse por isso, jamais teria me aproximado de Rubens Francisco Lucchetti, o homem por detrás de inúmeros filmes de terror e horror. Essa era a minha primeira impressão ao falar com o homem pela linha telefônica.

Corria o ano de 2005, e, estando no último ano da faculdade, fomos imbuídos de realizar um trabalho final que consistisse na realização de um documentário e um jornal impresso em um amplo estudo de campo. Conversando com alguns amigos, decidimos realizar uma pesquisa que, originalmente, consistia em apurar o impacto dos filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, na mídia impressa de Ribeirão Preto. Nossas expectativas foram frustradas ao constatarmos que muito pouco (ou nada) foi encontrado, que, ao menos, fizesse referência ao personagem nas páginas antigas de cultura nos jornais diários da cidade. Quando telefonei ao Rubens dizendo que a nossa intenção era a de fazer um trabalho que dissecasse a figura mítica do personagem Zé do Caixão, ele foi enfático em afirmar que já existia um estudo sobre isso no mercado editorial (não, coincidentemente, um livro que utilizamos em nossa bibliografia final). Foi educado e simpático, embora tenha me confessado, dias depois, que desconfiava da nossa empreitada por sermos jovens demais.

Éramos um grupo de cinco pessoas – três meninos e duas meninas – todos muito diferentes. Quando montamos o grupo, pensei que todos fossem familiarizados com os filmes de José Mojica Marins. A minha surpresa foi constatar que todos conheciam a obra do cineasta apenas por outros meios, sequer haviam visto um filme do homem. Mesmo assim, depois de apresentar a minha coleção módica de quatro filmes VHS que possuía, marcamos uma viagem à Jardinópolis, todos muito nervosos e ansiosos por conhecer um senhor que, à época, contava com 75 anos de idade. Eu, com receio de parecer enfadonho ou desinteressante; os outros, com medo de que nosso foco fosse prejudicado e a viagem soasse descabida. Em uma viagem que durou cerca de duas horas (entre nos familiarizarmos com a estrada e encontrarmos o endereço marcado), ia contando aos meus amigos as impressões que tinha sobre Rubens, pois o conhecia somente por intermédio de fotografias.

Olhando em retrospecto, é um prazer viver novamente essa impressão de êxtase que senti. Sempre fui uma pessoa tímida a princípio, e, não agi diferente quando conhecemos Lucchetti. Mas, como previsto, todos estavam nervosos e alguém precisava tomar a dianteira e quebrar o gelo. Após as apresentações formais, fomos conduzidos, através dos fundos da casa, para uma sala que dava de frente para a cozinha. Mais ao lado, reparamos uma sala repleta de relógios de parede, sinos e outros badulaques. Fomos apresentados à saudosa Dona Teresa, mulher de Rubens, que, prontamente, nos ofereceu um café, que aceitamos de bom grado. Já estabelecidos em um largo sofá, começamos a travar um monólogo sobre o nosso trabalho. Lembro que o filho de Rubens, o professor Marco Aurélio (de quem tinha pego o telefone), acompanhava a tudo com muita atenção. Depois de demonstrarmos o que gostaríamos de fazer no nosso projeto, comecei a ficar mais calmo e a falar sobre a minha paixão, o cinema. Aí, então, percebi que o papo fluiria, sem grandes problemas. Lembro-me de que conversamos sobre tudo um pouco: etapas inaugurais de um filme; produção; roteiro; escalação de elenco; supervisão de produção; patrocínio. Lembro-me, também, de ter demonstrado aos dois, pai e filho, que conhecia o nome do produtor Diller Trindade, que, no início dos anos 90, financiou alguns filmes de Xuxa. Portanto, já podia me sentir em casa; estávamos falando a mesma língua.

Alguns amigos mal abriram a boca; restringiram-se a observar e fazer algumas anotações enquanto o papo corria solto. Meus olhos não deixavam de observar os detalhes da casa. Passava em minha cabeça um misto de fascínio e estranheza. Quando o assunto deixou de ser “profissional” e descambou para o pessoal, senti-me à vontade para perguntar sobre a vida que levavam na cidade. Por intermédio de pesquisas que ultrapassavam os muros da faculdade, tomei conhecimento de que Rubens foi, por muitos anos, morador de Ribeirão Preto. Daí a conversa pendeu para o lado da crítica – muitas vezes também defendida por mim. Fiquei em um estado catatônico ao constatar que este homem (que, na minha mente era um mestre inatingível, repleto de estrelismo e tiques) era um comum ser humano. E, como qualquer ser humano, mantinha uma vida simples, ao lado do filho e da mulher, em uma modesta casa de alguns cômodos. Meus olhos passeavam pela sala; pelos cômodos; por todos os cantos da casa: observavam os adornos nas paredes (como uma espingarda de caça); os quadros que ilustravam os espaços; os quartos; o escritório de trabalho. Nada escapou, e, esta impressão (a de manter uma simplicidade e de sustentar sua paixão através de escritos inéditos) foi a que mantive para mim.

Passamos todos cerca de três horas na casa de Rubens, nos identificando como futuros jornalistas culturais. Meu grupo de amigos era tão dispare, que, entre nós, até mesmo uma crente se encontrava. Sem que eu soubesse desse detalhe, ela topou fazer parte do trabalho ao também sentir que Rubens, acima de seu trabalho profissional e de sua figura mítica, era um homem movido pela crença e pelas palavras divinas. Vencida esta primeira etapa, estávamos com um enorme pepino em mãos, pois percebemos que, se não modificássemos o foco do nosso trabalho todo, o esforço seria em vão. Percebemos a riqueza do homem cuja casa havíamos visitado. Em uma única conversa, Rubens contou-nos de seus inúmeros heterônimos na literatura; de suas peças escritas para rádios; seus roteiros de cinema (com e sem José Mojica Marins), alguns ainda inéditos; seus projetos pessoais e seus textos por encomenda. Se deixássemos nossas impressões de lado, corríamos o risco de sucumbir em algo que já existia e que, devido à experiência de cada um (ou falta de), poderia ser algo repetitivo e desinteressante.

Quando nos despedimos, tive a sensação de que nos conhecíamos há muitos anos. Senti-me tão à vontade pela hospitalidade e receptividade de tais pessoas, que, por um minuto, pensei estar em um sonho. Finalmente este muro havia sido quebrado e agora tínhamos um material rico em mãos. Com a decisão de transformar a vida deste homem em algo público e inédito, nosso trabalho traria à baila a figura enigmática e pouco conhecida de Rubens Francisco Lucchetti (enquanto um homem que dedicou sua vida às suas paixões, o cinema e a literatura; e, enquanto morador de Ribeirão Preto por muitos anos “escondido” em algumas ações culturais). Devo confessar que, enquanto fazíamos todo o trabalho (toda a aventura – conhecer o homem; reescrever o projeto; apresentar a parte teórica; montar um documentário de oito minutos e um jornal impresso de doze páginas – durou sete meses), tomei a liberdade de “pedir emprestado” algum escrito inédito, algumas ideias, roteiros engavetados, para servir de base escrita a toda pesquisa.

Por mim, digo que toda essa aproximação serviu para que a amizade surgisse. Uma amizade que é movida pela paixão à sétima arte e à literatura. Depois de apresentarmos o trabalho, no mês de dezembro daquele ano, meus amigos seguiram caminhos diferentes do meu. Todos eles foram fazer suas vidas em outras áreas de mercado (eu mesmo me arrisquei na área da licenciatura na mesma universidade), alguns conseguindo sucesso imediato. Outros mudaram de cidade e perderam contato de forma natural. O que ficou de tudo isso, além de uma bem-sucedida apresentação para uma banca composta de professores universitários e profissionais jornalistas, foi a amizade, o contato e o carinho nutrido pela família Lucchetti.

Hoje corre o ano de 2012. São sete anos de amizade, de companheirismo, respeito e admiração, mesmo que à distância. Neste tempo, muitas coisas permaneceram e tantas outras mudaram. A vida da gente vai se adaptando às perdas, às novas realidades, aos novos ritmos. Sei disso porque esta forma de vida me afastou deveras destes meus amigos queridos, que sempre estiveram (e continuam) presentes. Talvez por morarem em uma cidade diferente da minha – ainda que bastante próxima – a comunicação fique prejudicada. Não, eu não me esqueci deles, apenas me afastei por inúmeros motivos, pessoais e profissionais. Em sete anos, foram muitas confidências e impressões trocadas; muitos desejos e votos sinceros de saúde e força; muitos filmes compartilhados e muitos textos escritos. Sete anos marcados por longos e prazerosos telefonemas; esparsas visitas e algumas promessas minhas não cumpridas.

São também sete anos de reminiscências cinematográficas, filmes descobertos com prazer (como é o caso do cinema realizado por Jean Rollin) e algumas considerações contrárias. Lembro-me de Rubens me dizendo que não gosta do gênero western; que só se sente à vontade em ambientar suas histórias fora do Brasil; que tem de trabalhar diariamente para não adoecer e perder a prática (afinal, para ele, a escrita não é inspiração, e sim, técnica) e que não acha a cidade de Ribeirão Preto tão boa quanto se alardeia por aí. Também me recordo das críticas aos jornais locais; a algumas instituições culturais e outras tantas impressões.

Rubens Francisco Lucchetti e Marco Aurélio Lucchetti aceitem este pequeno artigo como um pedido de desculpas pelas inúmeras vezes que não cumpri aquilo que disse; mas, e acima de tudo, como um atestado de admiração e respeito incontestáveis por vocês dois. Interpretem este texto como uma ligação telefônica há muito cobrada e nunca feita. Passemos, pois, algumas horas trocando boas impressões sobre a vida, sobre a arte e a cultura geral. Que tal? Topam vir comigo?

Um Cineclube no meio do Mundo



            A divulgação de uma obra como “Viver Cinema: O Cineclube Cauim e seus trinta anos de história” é importante quando a vislumbramos dentro de uma perspectiva histórica e revisionista. Do ponto de vista atemporal, a obra é abrangente ao destacar o cineclube mais famoso da cidade de Ribeirão Preto (SP) em meio a tantas mudanças sociais, econômicas e políticas dentro do país – pois o mesmo surgiu durante o período conhecido como Anistia Geral e Irrestrita (1979), e, para além de transmitir cinema, era um espaço em que se consumiam novas idéias, novos sentimentos e velhos ideais. O Cauim é, hoje, o maior cineclube em atividade no país inteiro, mantendo uma sala de cinema de 800 lugares e inúmeros projetos paralelos que visam a educação e a sociabilidade da população mais carente.



            Existe dentro da obra a preocupação em situar o leitor que não seja familiarizado com o tema, portanto, busca-se, a todo instante, referências do período retratado em uma linguagem fácil e extremamente acessível. Quanto ao surgimento dos cineclubes no Brasil, remonta-se ao passado recente da cidade, quando o então morador-roteirista Rubens Francisco Lucchetti (eterno mestre) criou o primeiro Centro Experimental de Cinema, com o auxílio do então crítico Paulo Emílio Salles Gomes. O Cauim é cria exclusiva de um único homem, Fernando José da Silva, o Kaxassa, natural de Barretos, interior de São Paulo. Tendo feito Ciências Sociais na UNESP de Araraquara, sempre mexeu com sua paixão, o cinema, e atrelou a ele outras importantes manifestações (como o teatro e a música).



A pesquisa, concebida em três capítulos, abrange um pouco do Brasil cultural que muitos de nós aprendemos a conhecer. O primeiro capítulo apresenta a produção cinematográfica no Brasil, durante os anos 60-70 (o cinema novo – vertente popular do cinema, tendo como nome mais forte o do baiano Glauber Rocha; assim como a popularização do cinema nacional com as pornochanchadas e a criação, pelos militares, da Embrafilme, principal indústria brasileira de filmes) e o ressurgimento do cinema com apoios fiscais e incentivos após o período Collor, contando com depoimentos de jornalistas como Eduardo Torelli e Vébis Jr.

O segundo capítulo tem por finalidade apresentar, rapidamente, as áreas culturais que foram seriamente afetadas pela ditadura militar. Neste setor, músicas, livros, filmes; assim como artistas diversos foram prejudicados por atos escabrosos de nossos militares, que, falsamente, pregavam a política da moral e dos bons costumes, tentando, sem sucesso, vender uma imagem que não lhes convinha (a de próximos da população). Além disso, busca-se uma aproximação do que era produzido à época e os crimes políticos que se avolumavam com o tempo em jornais impressos e televisivos.

O terceiro capítulo, sob o prisma do historiador Paul Thompson, tem a finalidade de inserir os cineclubes dentro do contexto que se vivia à época (os primeiros cineclubes no Brasil e em Ribeirão Preto e, finalmente, o Cauim, como mais um dos muitos que, à época, tinham uma conduta diferenciada e, por isso mesmo, contestada). É neste capítulo que está concentrada a maior parte das falas dos entrevistados. O texto tem a função de traçar a trajetória do cineclube dentro do cenário cultural brasileiro – e, além disso, identificá-lo como um dos únicos ainda em atividade, não só na cidade, como no Brasil. São trinta anos de história, resumidos em poucas páginas, é bem verdade.



            O livro, portanto, ultrapassa o sentimento de homenagem. Tem a função primordial de demonstrar como um grupo pequeno de jovens (alguns já falecidos) foi ávido em seus princípios, sempre agregando valores e sentimentos às inúmeras ações culturais, sociais e políticas na cidade de Ribeirão Preto. O livro foi lançado dentro de uma coleção denominada “Nossa História”, de dez volumes, que visa divulgar e propagar diversos panoramas da cidade de Ribeirão Preto em períodos distintos. Escolhidos através de editais, os textos que a compõem são, em sua maioria, acadêmicos. O autor, Valter Martins de Paula, é jornalista e historiador. É também um apaixonado pela Sétima Arte.

O lançamento oficial aconteceu no dia 29 de maio de 2012, às 18h30, dentro da 12° Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, evento que reúne literatura, música e ação social e que tem enorme repercussão pela cidade. Estavam presentes, além dos dois vereadores que destinaram as verbas - André Luiz da Silva (PCdoB) e Gilberto Abreu (PV) -, a Secretária da Cultura, Sra. Adriana Silva; a Secretária da Educação, Sra. Débora Vendramini Durlo e convidados meus, entre amigos, profissionais e colegas. Fernando José da Silva, o Kaxassa, estava presente também, e tomou o microfone para informar que a obra passaria para as mãos da Petrobrás.

Uma coisa engraçada e até conflitante durante a escrita do livro foi a constatação de que o Cineclube Cauim sobrevive graças a ações culturais que extrapolam a simples exibição de um filme em uma sala de cinema. Hoje, o espaço se desdobra em muitos e ainda coexistem diversas ações dentro da cidade - como o teatro SantaRosa bancado pelo Cauim e bandas de música; além de choperia, sebo e até restaurante!

O legal de tudo isso é poder perceber que os ideais de antigamente ainda persistem (pois todos os envolvidos com o cineclube - e olha que são muitos espalhados pela cidade e região afora - continuam à margem daquilo que é considerado normal). Logicamente os ideais de guerrilha, luta armada, diferença política, se esvaíram. Mas ainda existe a questão social muito forte no sentido de poder se sentir útil para a população; principalmente a mais carente da cidade. E isso, como se vê, é um sentimento que escancara a principal face do Cauim hoje.

Não acredito que os cineclubes morram daqui pra frente. Logicamente seus espaços físicos não existirão mais,dando lugar a supermercados, bancos, igrejas, bingos, grandes lojas, etc. Mas sempre haverá aquele grupo que resiste e que é apaixonado por cinema, fazendo-o ir para frente - eu mesmo me considero parte de um grupo forte dentro de Ribeirão Preto. Interessante pensar sobre as novas demandas e exigências de mercado hoje em dia quando o assunto é a Sétima Arte. O Cauim é um espaço mutante, que se adaptou conforme os tempos e as vontades da sociedade (mudou de endereço, se modernizou, lançou mão da bilheteria em prol da divulgação de cinema). Logo, ele é a prova cabal de que é possível resistir e continuar ativo e atuante em mais de trinta anos de estrada.



Triste é mesmo irmos ao cinema e pagarmos uma quantia absurda de dinheiro para vermos lixos como "O Corvo" e a absurda produção nacional "E aí, Comeu?" (que merece uma crítica à parte de toda esta matéria, a bem da verdade), para citar dois exemplos mais recentes. O que deveria e poderia existir é o cineclube na sua forma mais primordial e clássica: mostrar e divulgar o cinema; mas, acima de tudo, ser um artífice do FAZER CINEMA. Paulínia, a cidade do interior, se tornou um polo de cinema. Ribeirão Preto vem tentando a anos um espaço neste panteão - existe, inclusive, um grande estúdio localizado bem no centro da cidade. Outras cidades (de maior ou menor alcance) poderiam tentar uma mudança neste prisma; despertando interesses e afinidades.

Vale lembrar que vários atores, atrizes, diretores e produtores que freqüentaram o Cauim têm ou tiveram merecida projeção. São os casos de Débora Duboc, Guilherme de Almeida Prado (diretor do excepcional e incompreendido Onde Estará Dulce Veiga?), Jair Correia (que dirigiu o brilhante exercício de estilo Shock, em 1983), e do falecido Jorge Andrade (autor de lindas novelas como Os Ossos do Barão, Os Gigantes, Gaivotas e O Grito, para as Redes Globo e Tupi de Televisão durante os anos '70), além de João Batista de Andrade, que lançou seu filme O Homem que virou Suco pela primeira vez na sala de exibição do Cauim, em 1981!

O Cauim fez, faz e pelo visto sempre fará história. E este é apenas um pequeno pedaço de toda esta caminhada. É um prazer poder desfrutar de tudo isso ao lado destes malucos. E que venham outros cineclubes em sua cola!


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sobre o algo, o nada, o vazio

  - O contrário de algo é o não-algo ou o oposto do algo? 
  - É o nada, o anti-algo
  - E o não algo fica onde?
  - O não-algo é o anti-algo, é o contrário da "coisa em si"
  - O antigo algo não é o oposto do algo?
  - O antigo algo é algo, não é o "nada", o antigo algo é apenas demodê... Não chega a negar o "algo" atual, pelo contrário, o completa
  - E a ausencia do algo?
  - A ausência do algo... é o vazio, mas é algo ainda
  - Então nada deixa de ser algo... O algo contém todos os vazios e "contradições"
  - Sim, o algo é cheio de significados, ao mesmo tempo que contém nenhum... é uma antítese.

Sacaram?

Publicado com a permissão da minha linda amiga. Às 00:27

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre Walter Queiroz

Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 21 de agosto de 1977

Impossível negar: os baianos não são apenas talentosos, mas organizados. E solidários. Só isso para explicar a permanente e múltipla presença de compositores e intérpretes baianos no cenário nacional. Em várias levas, os baianos estão sempre chegando ao Sul maravilha, onde, em tempo reduzido, conseguem fazer seus discos. Mais quatro lps de baianos, na praça, todos trabalhos bastantes pessoais e sinceros. Discutíveis, talvez, os resultados, não se pode duvidar da essência. Walter Queiroz acaba agora de fazer seu primeiro lp  Filho do Povo", (Phillips, 6349332, julho/77). Excelente letrista, cantor razoável, é outro baiano que veio para o Rio há 5 anos, pelas mãos de Roberto Santana, que lhe deu uma boa ajuda no início da carreira, incluindo, por exemplo, seu "Filho da Bahia", na voz de Fafá de Belém (então estreando na gravação) na trilha sonora de "Gabriela". Parceiro de Cesar Costa Filho em algumas de suas melhores músicas - "Tesoura Cega" (gravação de Beth Carvalho, uma das 10 melhores músicas de 75), "Dose Pra Leão" ("Anastácio"), "Samba Enredo Para Um Sambista Morto", acumulando algumas vezes letra e música, como em "Feijãozinho com Torresmo" (a melhor faixa do lp de Maria Creuza, RCA, 76), Walter Queiroz havia estreado, como cantor, num compacto simples, que apesar de uma boa canção ("Ensopado de Tristeza") não chegou a acontecer. Agora, reunindo os sambas já conhecidos - com outros novos (ou ao menos, até agora inéditos em gravações), como "Maravilha", "Pode Entrar", "Tudo Debaixo do Banco", "Meu Papagaio Falou" e "Noturno dos Abandonados", "Africana Re Re" e "Maculele" (estas duas em parceria com Paulo Levita), Walter faz um lp estimulante, bem acabado, com texto de contracapa de Jorge Amado e que se inclui entre os bons discos da temporada.

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Em tempo: O disco Filho do Povo, que esbarrei nesta semana, é um clássico da discografia nacional. Escutar e entender toda a complexidade das canções é uma maravilha que não tem preço. Aliás, tentar redescobrir esta pérola e lhe dar o devido valor é uma coisa que devemos fazer quase sem pensar. Walter Queiroz é, sem dúvida, um dos melhores sambistas e músicos que o Brasil já teve. O homem é tão sensacional e esquecido que hoje ninguém o cita como importante. Foi tema de abertura de novela (Cambalacho - Silvio de Abreu, 1986) e hoje está relegado. Não cometa o erro de não conhecê-lo.

Download: Filho do Povo (Phillips - 1977)

http://depositfiles.com/pt/files/mne7cstme

http://rapidshare.com/files/319571796/oz_-_filho_do_povo_-_philips_6349.332__1977_.rar




quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Rapidinhas (x2)

SENSAÇÕES (Barulhos, Canções)
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Algumas canções que precisam ser ouvidas por quem me lê:

Ash (do disco The A-Z Series)

- Joy Kicks Darkness - http://www.youtube.com/watch?v=4gNpw_u_pU4

- The Dead Disciples - http://www.youtube.com/watch?v=lDzhSmRepmc

- Space Shot - http://www.youtube.com/watch?v=5K06oxJbI6Y


The Irrepressibles* (do disco Mirror, Mirror)

*uma espécie de Antony and the Johsons mais obscuro e menos melancólico

- My Friend Jo

- In Your Eyes

- Anvil