Minhas mãos tremiam
ao chegar perto das teclas do telefone. Era fazer uma ligação e, talvez, tudo
estivesse arruinado. Pensei que tanto trabalho para conseguir o número poderia
resvalar em nada. Venci
minha timidez ao me apresentar ao professor do curso da minha irmã na faculdade
(filho daquele com o qual eu queria manter contato), e, agora, prestes a fazer
a ligação, o meu coração batia acelerado no peito. Afinal, estaria realizando
um sonho antigo, o de finalmente poder conhecer uma pessoa que eu admirava à
distância, através de seus escritos e seus roteiros em inúmeros filmes que
tinha assistido na infância e adolescência. Ser um estudante de jornalismo
apaixonado por cinema deve ter suas vantagens, afinal, não fosse por isso,
jamais teria me aproximado de Rubens Francisco Lucchetti, o homem por detrás de
inúmeros filmes de terror e horror. Essa era a minha primeira impressão ao
falar com o homem pela linha telefônica.
Corria o ano de
2005, e, estando no último ano da faculdade, fomos imbuídos de realizar um
trabalho final que consistisse na realização de um documentário e um jornal
impresso em um amplo estudo de campo. Conversando com alguns amigos, decidimos
realizar uma pesquisa que, originalmente, consistia em apurar o impacto dos
filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, na mídia impressa de Ribeirão Preto.
Nossas expectativas foram frustradas ao constatarmos que muito pouco (ou nada)
foi encontrado, que, ao menos, fizesse referência ao personagem nas páginas
antigas de cultura nos jornais diários da cidade. Quando telefonei ao Rubens
dizendo que a nossa intenção era a de fazer um trabalho que dissecasse a figura
mítica do personagem Zé do Caixão, ele foi enfático em afirmar que já existia
um estudo sobre isso no mercado editorial (não, coincidentemente, um livro que
utilizamos em nossa bibliografia final). Foi educado e simpático, embora tenha
me confessado, dias depois, que desconfiava da nossa empreitada por sermos
jovens demais.
Éramos um grupo de
cinco pessoas – três meninos e duas meninas – todos muito diferentes. Quando
montamos o grupo, pensei que todos fossem familiarizados com os filmes de José
Mojica Marins. A minha surpresa foi constatar que todos conheciam a obra do
cineasta apenas por outros meios, sequer haviam visto um filme do homem. Mesmo
assim, depois de apresentar a minha coleção módica de quatro filmes VHS que
possuía, marcamos uma viagem à Jardinópolis, todos muito nervosos e ansiosos
por conhecer um senhor que, à época, contava com 75 anos de idade. Eu, com
receio de parecer enfadonho ou desinteressante; os outros, com medo de que
nosso foco fosse prejudicado e a viagem soasse descabida. Em uma viagem que
durou cerca de duas horas (entre nos familiarizarmos com a estrada e
encontrarmos o endereço marcado), ia contando aos meus amigos as impressões que
tinha sobre Rubens, pois o conhecia somente por intermédio de fotografias.
Olhando em
retrospecto, é um prazer viver novamente essa impressão de êxtase que senti. Sempre
fui uma pessoa tímida a princípio, e, não agi diferente quando conhecemos
Lucchetti. Mas, como previsto, todos estavam nervosos e alguém precisava tomar
a dianteira e quebrar o gelo. Após as apresentações formais, fomos conduzidos,
através dos fundos da casa, para uma sala que dava de frente para a cozinha.
Mais ao lado, reparamos uma sala repleta de relógios de parede, sinos e outros
badulaques. Fomos apresentados à saudosa Dona Teresa, mulher de Rubens, que,
prontamente, nos ofereceu um café, que aceitamos de bom grado. Já estabelecidos
em um largo sofá, começamos a travar um monólogo sobre o nosso trabalho. Lembro
que o filho de Rubens, o professor Marco Aurélio (de quem tinha pego o
telefone), acompanhava a tudo com muita atenção. Depois de demonstrarmos o que
gostaríamos de fazer no nosso projeto, comecei a ficar mais calmo e a falar
sobre a minha paixão, o cinema. Aí, então, percebi que o papo fluiria, sem
grandes problemas. Lembro-me de que conversamos sobre tudo um pouco: etapas
inaugurais de um filme; produção; roteiro; escalação de elenco; supervisão de
produção; patrocínio. Lembro-me, também, de ter demonstrado aos dois, pai e
filho, que conhecia o nome do produtor Diller Trindade, que, no início dos anos
90, financiou alguns filmes de Xuxa. Portanto, já podia me sentir em casa; estávamos
falando a mesma língua.
Alguns amigos mal
abriram a boca; restringiram-se a observar e fazer algumas anotações enquanto o
papo corria solto. Meus olhos não deixavam de observar os detalhes da casa.
Passava em minha cabeça um misto de fascínio e estranheza. Quando o assunto
deixou de ser “profissional” e descambou para o pessoal, senti-me à vontade
para perguntar sobre a vida que levavam na cidade. Por intermédio de pesquisas
que ultrapassavam os muros da faculdade, tomei conhecimento de que Rubens foi,
por muitos anos, morador de Ribeirão Preto. Daí a conversa pendeu para o lado
da crítica – muitas vezes também defendida por mim. Fiquei em um estado
catatônico ao constatar que este homem (que, na minha mente era um mestre
inatingível, repleto de estrelismo e tiques) era um comum ser humano. E, como
qualquer ser humano, mantinha uma vida simples, ao lado do filho e da mulher,
em uma modesta casa de alguns cômodos. Meus olhos passeavam pela sala; pelos
cômodos; por todos os cantos da casa: observavam os adornos nas paredes (como
uma espingarda de caça); os quadros que ilustravam os espaços; os quartos; o
escritório de trabalho. Nada escapou, e, esta impressão (a de manter uma
simplicidade e de sustentar sua paixão através de escritos inéditos) foi a que
mantive para mim.
Passamos todos
cerca de três horas na casa de Rubens, nos identificando como futuros
jornalistas culturais. Meu grupo de amigos era tão dispare, que, entre nós, até
mesmo uma crente se encontrava. Sem que eu soubesse desse detalhe, ela topou
fazer parte do trabalho ao também sentir que Rubens, acima de seu trabalho
profissional e de sua figura mítica, era um homem movido pela crença e pelas
palavras divinas. Vencida esta primeira etapa, estávamos com um enorme pepino
em mãos, pois percebemos que, se não modificássemos o foco do nosso trabalho
todo, o esforço seria em
vão. Percebemos a riqueza do homem cuja casa havíamos
visitado. Em uma única conversa, Rubens contou-nos de seus inúmeros heterônimos
na literatura; de suas peças escritas para rádios; seus roteiros de cinema (com
e sem José Mojica Marins), alguns ainda inéditos; seus projetos pessoais e seus
textos por encomenda. Se deixássemos nossas impressões de lado, corríamos o
risco de sucumbir em algo que já existia e que, devido à experiência de cada um
(ou falta de), poderia ser algo repetitivo e desinteressante.
Quando nos
despedimos, tive a sensação de que nos conhecíamos há muitos anos. Senti-me tão
à vontade pela hospitalidade e receptividade de tais pessoas, que, por um
minuto, pensei estar em um sonho. Finalmente este muro havia sido quebrado e
agora tínhamos um material rico em
mãos. Com a decisão de transformar a vida deste homem em algo
público e inédito, nosso trabalho traria à baila a figura enigmática e pouco
conhecida de Rubens Francisco Lucchetti (enquanto um homem que dedicou sua vida
às suas paixões, o cinema e a literatura; e, enquanto morador de Ribeirão Preto
por muitos anos “escondido” em algumas ações culturais). Devo confessar que,
enquanto fazíamos todo o trabalho (toda a aventura – conhecer o homem;
reescrever o projeto; apresentar a parte teórica; montar um documentário de
oito minutos e um jornal impresso de doze páginas – durou sete meses), tomei a
liberdade de “pedir emprestado” algum escrito inédito, algumas ideias, roteiros
engavetados, para servir de base escrita a toda pesquisa.
Por mim, digo que
toda essa aproximação serviu para que a amizade surgisse. Uma amizade que é
movida pela paixão à sétima arte e à literatura. Depois de apresentarmos o
trabalho, no mês de dezembro daquele ano, meus amigos seguiram caminhos
diferentes do meu. Todos eles foram fazer suas vidas em outras áreas de mercado
(eu mesmo me arrisquei na área da licenciatura na mesma universidade), alguns
conseguindo sucesso imediato. Outros mudaram de cidade e perderam contato de
forma natural. O que ficou de tudo isso, além de uma bem-sucedida apresentação
para uma banca composta de professores universitários e profissionais
jornalistas, foi a amizade, o contato e o carinho nutrido pela família Lucchetti.
Hoje corre o ano de
2012. São sete anos de amizade, de companheirismo, respeito e admiração, mesmo
que à distância. Neste tempo, muitas coisas permaneceram e tantas outras
mudaram. A vida da gente vai se adaptando às perdas, às novas realidades, aos
novos ritmos. Sei disso porque esta forma de vida me afastou deveras destes
meus amigos queridos, que sempre estiveram (e continuam) presentes. Talvez por
morarem em uma cidade diferente da minha – ainda que bastante próxima – a
comunicação fique prejudicada. Não, eu não me esqueci deles, apenas me afastei
por inúmeros motivos, pessoais e profissionais. Em sete anos, foram muitas
confidências e impressões trocadas; muitos desejos e votos sinceros de saúde e
força; muitos filmes compartilhados e muitos textos escritos. Sete anos marcados
por longos e prazerosos telefonemas; esparsas visitas e algumas promessas
minhas não cumpridas.
São também sete
anos de reminiscências cinematográficas, filmes descobertos com prazer (como é
o caso do cinema realizado por Jean Rollin) e algumas considerações contrárias.
Lembro-me de Rubens me dizendo que não gosta do gênero western; que só se sente
à vontade em ambientar suas histórias fora do Brasil; que tem de trabalhar
diariamente para não adoecer e perder a prática (afinal, para ele, a escrita
não é inspiração, e sim, técnica) e que não acha a cidade de Ribeirão Preto tão
boa quanto se alardeia por aí. Também me recordo das críticas aos jornais
locais; a algumas instituições culturais e outras tantas impressões.
Rubens Francisco
Lucchetti e Marco Aurélio Lucchetti aceitem este pequeno artigo como um pedido
de desculpas pelas inúmeras vezes que não cumpri aquilo que disse; mas, e acima
de tudo, como um atestado de admiração e respeito incontestáveis por vocês
dois. Interpretem este texto como uma ligação telefônica há muito cobrada e
nunca feita. Passemos, pois, algumas horas trocando boas impressões sobre a
vida, sobre a arte e a cultura geral. Que tal? Topam vir comigo?

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