O Cineclube
Cauim surgiu no ano de 1979. No Brasil, havia 15 anos de repressão política e
ideológica em
andamento. Segundo seu fundador, a idéia de transformar um
espaço em cineclube transcendia a sua paixão por cinema; era algo
essencialmente político. Para Fernando Kaxassa, a intenção era juntar aquilo
que ele mais gostava – o cinema – com debates de idéias (que, a bem da verdade,
era algo considerado “subversivo” à época). O espaço não servia somente como
refúgio cultural para aquelas pessoas que “queriam fugir do shopping que
acabava de inaugurar em Ribeirão”; seus fundadores tinham a intenção de viver
de cinema – e por alguns anos, tentaram até a carreira de produtores.
Seus fundadores foram responsáveis
por participar de momentos importantes da história do Brasil. Além de terem
fundado o Cineclube no ano da instituição da Anistia Geral e Irrestrita
(possibilitando a primeira abertura política que anos depois desembocaria no
nosso atual sistema político democrático), Fernando Caxassa se diz orgulhoso
por ter sido “o único cara de Ribeirão Preto a participar da elaboração da Constituição
de 1988 desde o fim da Ditadura Militar”.
O Cineclube Cauim foi criado num
momento em que
Ribeirão Preto passava por uma mudança em seu centro. Os
chamados ‘cinemas de rua’ estavam cedendo espaço aos cinemas de shopping,
portanto, uma das maneiras que o Cauim encontrou de se estabelecer foi na
maneira como o espaço funcionava como cerne de discussões, através de Mostras e
Ciclos. O Cauim pegou um vácuo deixado pelo primeiro cineclube de Ribeirão
Preto, surgido em 1962, tendo como coordenador o talentoso roteirista Rubens
Francisco Lucchetti. “Uma das Mostras mais famosas organizadas pelo Caxassa
veio de uma antiga tentativa de proporcionar uma amostra dos filmes de Charles
Chaplin para a população de Ribeirão Preto. Foi algo grandioso: além de filmes,
houve exibição de desenhos e até mesmo uma carta respondida a mim, de próprio
punho do grande Chaplin”, relembra.
Em 32 anos de existência, o
Cineclube Cauim passou por muitas mudanças (desde seu endereço, até os projetos
dos quais faz parte hoje na cidade). Se na época de sua formação a intenção era
tornar o cinema mais popular e trazer a população para dentro do cinema, hoje,
seus fundadores argumentam que os projetos dos quais faz parte cumprem essa
função. “Hoje o Cineclube Cauim não é mais um espaço em que se exibe somente
filmes. A nossa função social é ainda mais forte hoje do que no passado, porque
temos responsabilidades maiores; a gente cresceu como entidade e como espaço
realmente diferenciado. Tudo foi, é e será fruto de muito trabalho e coletividade”,
diz Kaxassa.
As mudanças começaram a acontecer
devido às próprias mudanças no país. Como o Cineclube sempre acompanhou a
trajetória social do Brasil – além de suas mudanças econômicas, culturais e
políticas – isso se tornou uma constante para os membros fundadores. Na crise
enfrentada pelo cinema brasileiro em meados dos anos 1990, por exemplo, o
Cineclube atravessou momentos críticos. No início dos anos 2000, o Cauim, após
alguns anos de portas cerradas, voltou em grande estilo; adotando o espaço de
um antigo e respeitado cinema localizado na Rua São Sebastião, onde até hoje
continua instalado. Com o novo espaço, vieram novos desafios: projetos
educativos (como A Escola vai ao Cinema, responsável por levar mensalmente
cerca de 300 alunos das escolas públicas de Ribeirão e região); projetos de
cidadania (como o Templo da Cidadania, localizado no Morro do São Bento), entre
diversos outros.
O Cauim hoje se desdobra em muitas
atividades paralelas. Na ocasião da comemoração de seus 30 anos, em outubro de
2009, houve uma grande festa com a presença de autoridades locais, autores e
atores que têm laços fortes com o cineclube (como é o caso da hoje famosa
Débora Duboc, que iniciou sua carreira em Ribeirão Preto e
tem um espaço cultural reservado com seu nome, onde funciona o Cineclube
Canarinho, uma extensão das exibições do Cauim). Em alguns discursos, a ênfase nas origens do Cineclube ficou
evidente. Muitos dos que falaram apontavam o início de tudo como uma época
bonita e muito frutífera, onde os fundadores experimentaram o cineclube de
diversas formas.
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Tendo como marco
inaugural a exibição de um curta-metragem intitulado O Trem, em 1895, o cinema
como instituição foi inaugurado pelos irmãos Lumière, na França. Foi lá também
que o cinema começou a ser enxergado como uma forma de compreensão da
realidade, principalmente após a participação deste e de outros países na
Primeira Guerra Mundial. O autor Carlos Armando, em seu livro, aponta que a
Primeira Guerra teve papel fundamental na divulgação do cinema como arte,
porque os filmes representavam a sociedade em seus âmbitos políticos e sociais
num período em que pouco se percebia a participação ativa dessas populações
destruídas e destituídas.
Foi neste cenário desolado, ainda na
França e depois em países ao redor do mundo, que a palavra cineclube começou a
circular entre os meios intelectuais e iniciados. Criação de Louis Delluc, os
anos 1920 foram responsáveis por espalhar essa nova prática e perspectiva para
os países desenvolvidos. Segundo o autor,
Em 1925 e 1926, o conceito de cineclube começou a se
espalhar por outros países europeus, levando para essas entidades que o
objetivo essencial delas seria a organização de sessões privadas com filmes de
características artísticas. Antes ou depois das sessões havia conferências e
debates. E logo o empreendimento tornou-se uma forma pedagógica na formação de
cinéfilos, críticos e cineastas. Os cineclubes também começaram a lutar contra
a censura, e, sobretudo, a reabilitar obras desprezadas do grande público. [...]
(ARMANDO, p.18)
No Brasil, o primeiro cineclube
surgiu em 1927, tendo como um de seus membros fundadores o autor do polêmico e
ainda hoje cultuado Limite (1931),
Mário Peixoto. O desenvolvimento dos cineclubes foi lento, mas, na França e
outros países europeus, tornaram- se além da imprensa outro forte meio de
divulgação de cinema nos anos 30. Cabe salientar, localmente, que a época em
que os cineclubes estouraram por diversos países também foi a época do grande
desenvolvimento econômico e político da cidade de Ribeirão Preto (que só veio
ter o seu primeiro cineclube na primeira metade da década de 1960; quando o
conceito de cineclube já havia sofrido diversas modificações). Os primeiros
cineclubes no Brasil foram inaugurados nas grandes capitais, como São Paulo,
Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Nos países europeus, a exibição de
filmes como O Encouraçado Potenkin
(1925) e O Gabinete do Dr. Caligari
(1919) potencializaram o propósito inicial dos cineclubes, como espaços em que
se promoviam debates e discussões acerca das qualidades técnicas dos filmes e
do impacto social dos mesmos nas populações. Para privilegiar todo este
potencial “modificador”, ainda que contestado, o cineclube tem como regra
básica, como aponta Armando, a organização dos títulos em uma cinemateca.
Formada da mesma maneira que ‘biblioteca’, a palavra
‘cinemateca’ indica o local onde são conservados, classificados e colocados à
disposição do público os filmes que constituem o fundo cultural cinematográfico.
[...] Desde 1938 todas as cinematecas nacionais se agruparam em torno de uma
organização mundial: a Federação Internacional de Arquivos de Filmes. Nas
cinematecas está guardado o patrimônio histórico do cinema mundial. (Idem,
pp.19-20)
Interessante é notar, na linha do
tempo e conforme as modificações sociais, políticas, e econômicas de cada país,
como os cineclubes tornaram-se parte importante do desenvolvimento artístico e
intelectual de forma geral. Intelectualmente, como aponta o autor, era
interessante para quem conseguia freqüentar esses locais, esses espaços; era
uma forma de ‘status’ que poderia ser alcançado ainda que, a princípio, não
existissem fins lucrativos para tal prática. Da mesma forma como o cineclube
surgiu como ferramenta de entendimento de uma sociedade fragilizada, ele logo
tomou proporções maiores, quando começou a se envolver politicamente nas
decisões artísticas e intelectuais desses países e locais. Novamente, o autor
constata que
[...] o papel histórico dos cineclubes, depois de 40
anos, dividia-se entre a luta que deveria ser travada em nome da arte contra o
comércio e a tomada de posição política para revolucionar os conceitos
artísticos. De um lado, os cineclubes pedagógicos, catequizadores; de outro, os
que se propunham fazer a cabeça dos cinéfilos. Os que queriam ensinar a arte
cinematográfica aos espectadores e os que desejavam ministrar determinadas
idéias por intermédio do cinema. (Idem, p.20)
Dentro desta
perspectiva, e tendo em vista que o espaço é público e aberto a novos e
bem-vindos entendimentos, o estudo do cineclube como fonte histórica traz em
sua base a principal função do mesmo, qual seja,
[...] cabe ao cineclube, mediante a projeção de filmes
e debates após as sessões para enriquecer a visão dos cinéfilos e motivar os
seus interesses, dar as bases de uma cultura cinematográfica que certamente
será completada mediante cursos, em que se estudam os gêneros, os grandes
cineastas, os mais variados temas que as fitas abordam e a própria história da
evolução do cinema. Ajunte-se a isso a linguagem cinematográfica, os elementos
de um filme, as etapas de realização, a passagem do roteiro escrito para as
imagens filmadas. [...] (Idem, p.24)

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