Depoimento concedido pelo vereador Gilberto Abreu (PV) para o meu livro "Viver Cinema: o Cineclube Cauim e seus trinta anos de História".
Me chamo Gilberto Andrade de Abreu, sou natural de
Passos, Minas Gerais, nasci no dia 23 de julho de ’49, portanto, tenho 62 anos.
A minha infância eu passei em Passos e, em relação ao cinema, eu ia à matinê
nos domingos, todos os domingos, e a partir de uma determinada idade eu já
acompanhava meus pais nas sessões noturnas. O cinema sempre foi encantador e,
nas matinês, eu sempre torci pelo lado errado – sempre torci pelos índios e era
massacrado. Então acho que sempre tive esse destino, a partir da minha
infância, torcer pros mais fracos. Quanto à TV, é uma invenção muito mais
recente. Boa parte da minha juventude não tinha televisão – a TV começou a
chegar ao interior do Brasil nos anos ’60, ’70, então, eu ia ao cinema, que é
uma das mais revolucionárias invenções da História, originalmente francesa, e
que os americanos transformaram em um dos maiores negócios do mundo.
Em Passos não havia cineclubes. O que existia eram
cursos e clubes de fotografia; e o que era comum à época era mais as revistas,
os gibis (que a gente colecionava e trocava na porta do cinema), mas essa
questão mais eletrônica e de imagem em movimento é coisa muito recente; quando
eu era jovem não existia. Quando eu mudei pra cá, sim, porque já era outra
época, eu tinha quase 30 anos, e a realidade já era outra, inclusive dentro do
mundo da tecnologia.
Os fundadores do Cauim e eu chegamos a Ribeirão
praticamente ao mesmo tempo, no final da década de ’70. Nós já tínhamos alguma
identidade cultural, e nos encontrávamos em teatros e shows. Essa afinidade
começou a existir antes de o Cauim ser inaugurado. O cineclube nasceu, na
verdade, de uma interação de atividades. Eu dirigia a área cultural do COC e trazia
muitas figuras importantes pra cá, inclusive do cinema, e a gente participava
de debates e conversas e essa afinidade foi se desenvolvendo. Talvez até já
existisse espaços parecidos com o Cauim antes, mas o Fernando, Fernando
Caxassa, meu grande amigo, sempre entusiasmado pelo cinema, a partir desses
encontros (que, algumas vezes, filmava ou nos reuníamos depois para debater,
geralmente em mesas de bar) foi se avolumando. A idéia de produzir coisas e
aglutinar pessoas em torno do cinema e da fotografia, assim como da literatura,
foi crescendo.
Dificuldade existia e existe até hoje. A sobrevivência
do cineclube ainda é um parto real até hoje. Na época era mais difícil ainda.
Mas o entusiasmo das pessoas quererem fazer as coisas ajudou. Fazia palestra, debate;
nós estávamos sempre em
grupo. Fomos criando um núcleo cultural – ainda existia a
repressão da Ditadura, o que servia para que nos uníssemos cada vez mais. Eu
vim de uma cidade extremamente conservadora, que é Passos, e me chocou um pouco
porque aqui eu vi uma sociedade menos conservadora, mas ainda conservadora.
Nosso grupo de amigos, professores, fotógrafos e artistas, nas reuniões, foi
criando espaços na cidade, o que, mais tarde, se revelou uma aventura muito
grande. Havia repressão, mas nós nunca nos incomodamos com ela e fomos abrindo
os espaços. Abrir espaços é como abrir cabeças: havia debates no COC, no
Colégio Auxiliadora, na UNAERP; onde havia debate e discussão nós estávamos
presentes e isso foi criando um espaço cultural alternativo.
O Cineclube Cauim funcionava na Rua Lafaiete, entre a
Álvares Cabral e a Tibiriçá – onde havia um cinema – e as pessoas começaram a
se aglutinar, num movimento que foi crescendo e fazíamos temporadas de grandes
nomes do cinema (Semana Ingrid Bergman, Pasolinni, etc) e os amantes foram se
aproximando e criando uma cultura local muito grande. Não existia apoio, era
tudo na cara e na coragem. Era uma empresa que pagava um convidado, outra que
pagava o artista; era uma escola que pagava os palestrantes, era tudo no
improviso e com a participação de amigos nossos, da área empresarial que sempre
foram contribuindo e colaborando e a coisa foi crescendo e se instituindo. Tudo
que se institucionaliza morre, mas o Cauim é o maior exemplo de que não: o
Cauim criou uma subcultura em
Ribeirão Preto – de contestação, de presença, de politização,
de amizade. Esta subcultura progrediu e criou outros núcleos e eu jogo a
responsabilidade disso ao Cauim. Outros grupos, como o Ribeirão em Cena, do
Gilson Filho, surgiram da experiência do Cauim: é possível fazer cultura, mas
nunca é fácil, porque as empresas e o poder público, sobretudo, não investem, e
pelo mínimo que se consegue é possível fazer coisas muito boas, como foram
feitas.
Fernando Caxassa, o Mel, o Geraldo Noel, o Edvaldo
Arantes... Depois vieram outros que se agregaram. Existe um grande número de
pessoas e seria injusto eu esquecer qualquer nome – inclusive dos que nem aqui
residem mais. Alguns morreram, como o Canarinho e o Sócrates (que se agregou
depois, por conta das suas afinidades culturais com o Cauim desde o princípio,
e não pelo futebol, como é comum as pessoas confundirem). Fundamentalmente, o
Cauim existe por um nome só e este nome é Fernando Caxassa.
Digamos que de freqüência regular, não mais, por causa
das minhas outras atividades. Volta e meia o Fernando me liga por conta de
algum evento, ou de cinema, ou de encontro de amigos, essa cultura que o Cauim
gerou é que é importante e que levou a projetos como o Templo da Cidadania, os
projetos sociais do Cauim e isso é interessantíssimo. Regularmente o Fernando
me liga e estamos sempre irmanados e a luta continua. As coisas hoje são mais
fluidas, nós sabemos mais claramente tudo o que precisa ser feito. E, mais
claramente, a gente sabe que está sozinho. Tudo começou muito modestamente e o
Cauim se transformou no maior cineclube do mundo – esse passo foi maior que a
perna – não só em termos de durabilidade, mas em termos de tamanhos físicos.
Qual cineclube hoje mantém um cinema de mil lugares?
Agora, eu acho que, por falta de apoio, o Cauim não
faz mais do que fez, que é ministrar cursos de cinema. Dar iniciação ao cinema,
que é a função primordial de qualquer cineclube – não só ser um centro de
debates sobre o cinema, mas o ensino de cinema, da técnica cinematográfica. O
Cauim hoje precisa recuperar sua origem. Este ano tem uma emenda (embora de
valor pequeno) para o Cauim. O grupo Ribeirão em Cena, por exemplo... Se não
fosse pela verba que destinei enquanto vereador nos últimos três anos, já teria
fechado. O que a gente pode fazer nesse sentido, a gente faz. Acabamos de
editar uma coletânea de 13 livros. O que eu posso fazer enquanto da destinação
de verbas para a cultura, eu faço, só que todo poder é limitado. Precisava
haver maior envolvimento da iniciativa privada, que é assim que se viabilizam
os projetos. Desde que os projetos sejam qualificados, que o façam, mas é
difícil. Não é fácil propor e ter a concordância de empresários para projetos
de cultura qualificada. De cultura maciça é fácil, pois o retorno é imediato.
O Cauim formou pessoas de maneira informal. Formou
informalmente. Muita gente se tornou profissional por freqüentar o Cauim e os
projetos que o Banco Ribeirão Preto tem patrocinado ao Cauim vem permitindo uma
ação social importantíssima e eu acho que é um trabalho importante, mas o foco
do Cauim mesmo é a questão cultural. A gastronomia é um elemento. O que eu
cobro do Fernando é que o Cauim se volte para o cinema: formar cineastas,
atores, produtores... Existem atividades e instituições afins. Deve haver um
direcionamento da alta cultura – não desprezando a cultura popular – porque a
alta cultura é cultura de qualidade e não de elite. A soma de esforços é que
poderá criar um movimento cultural maior em Ribeirão Preto.
O Estado, no Brasil, é muito importante para subsidiar
atividades. Mas o Cauim é um exemplo de que, independente do Estado, ou com a
colaboração do Estado, você pode durar décadas e criar projetos interessantes.
Eu acho que o Cauim, agora, tem que tomar um rumo de independência, de geração
de renda, coisa que ele ainda não conseguiu. Não adianta ficar também à mercê
da graça de governantes para que eles banquem projetos. A cultura de Ribeirão
Preto nos últimos trinta anos está ou ligada, ou na órbita do Cauim. Quem não
tem independência econômica, não tem independência ideológica. O Cauim sempre
teve ideologia e precisa criar condições de sustento para mantê-la. Novas
atitudes, novas propostas, não ficar à mercê do Estado, por exemplo, são ações
cabíveis de serem feitas. Aqui em Ribeirão Preto ainda existe o coronelismo e o
clientelismo, o favoritismo. O Cauim tem que manter a autonomia que sempre teve
e permanecer, ou pelo menos, tentar ficar longe dos políticos.
Todos os meus livros e enquanto eu puder (e qualquer
editora permitir), a Editora Cauim ou a chancela Cauim estará em todos os meus
livros. É uma marca da minha vida, da vida do Fernando e eu carrego não só como
uma homenagem. O Cauim é um estado de espírito, e divulgar este estado de
espírito faz parte da cultura do Cauim. Eu ponho o Cauim nos meus livros como
homenagem: ao grupo de amigos excepcional que criou um movimento extraordinário
em Ribeirão Preto e inspirou dezenas de outros. Eu acho que é uma relação
dialética e recíproca. Eu contribuo com o Cauim e o Cauim contribui comigo pela
relevância que eu acho que é o projeto.


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