quinta-feira, 5 de julho de 2012

Gilberto Abreu

Depoimento concedido pelo vereador Gilberto Abreu (PV) para o meu livro "Viver Cinema: o Cineclube Cauim e seus trinta anos de História".


DEPOIMENTO GILBERTO ABREU – 21 de janeiro de 2012







Me chamo Gilberto Andrade de Abreu, sou natural de Passos, Minas Gerais, nasci no dia 23 de julho de ’49, portanto, tenho 62 anos. A minha infância eu passei em Passos e, em relação ao cinema, eu ia à matinê nos domingos, todos os domingos, e a partir de uma determinada idade eu já acompanhava meus pais nas sessões noturnas. O cinema sempre foi encantador e, nas matinês, eu sempre torci pelo lado errado – sempre torci pelos índios e era massacrado. Então acho que sempre tive esse destino, a partir da minha infância, torcer pros mais fracos. Quanto à TV, é uma invenção muito mais recente. Boa parte da minha juventude não tinha televisão – a TV começou a chegar ao interior do Brasil nos anos ’60, ’70, então, eu ia ao cinema, que é uma das mais revolucionárias invenções da História, originalmente francesa, e que os americanos transformaram em um dos maiores negócios do mundo.
                              
Em Passos não havia cineclubes. O que existia eram cursos e clubes de fotografia; e o que era comum à época era mais as revistas, os gibis (que a gente colecionava e trocava na porta do cinema), mas essa questão mais eletrônica e de imagem em movimento é coisa muito recente; quando eu era jovem não existia. Quando eu mudei pra cá, sim, porque já era outra época, eu tinha quase 30 anos, e a realidade já era outra, inclusive dentro do mundo da tecnologia.

Os fundadores do Cauim e eu chegamos a Ribeirão praticamente ao mesmo tempo, no final da década de ’70. Nós já tínhamos alguma identidade cultural, e nos encontrávamos em teatros e shows. Essa afinidade começou a existir antes de o Cauim ser inaugurado. O cineclube nasceu, na verdade, de uma interação de atividades. Eu dirigia a área cultural do COC e trazia muitas figuras importantes pra cá, inclusive do cinema, e a gente participava de debates e conversas e essa afinidade foi se desenvolvendo. Talvez até já existisse espaços parecidos com o Cauim antes, mas o Fernando, Fernando Caxassa, meu grande amigo, sempre entusiasmado pelo cinema, a partir desses encontros (que, algumas vezes, filmava ou nos reuníamos depois para debater, geralmente em mesas de bar) foi se avolumando. A idéia de produzir coisas e aglutinar pessoas em torno do cinema e da fotografia, assim como da literatura, foi crescendo.

Dificuldade existia e existe até hoje. A sobrevivência do cineclube ainda é um parto real até hoje. Na época era mais difícil ainda. Mas o entusiasmo das pessoas quererem fazer as coisas ajudou. Fazia palestra, debate; nós estávamos sempre em grupo. Fomos criando um núcleo cultural – ainda existia a repressão da Ditadura, o que servia para que nos uníssemos cada vez mais. Eu vim de uma cidade extremamente conservadora, que é Passos, e me chocou um pouco porque aqui eu vi uma sociedade menos conservadora, mas ainda conservadora. Nosso grupo de amigos, professores, fotógrafos e artistas, nas reuniões, foi criando espaços na cidade, o que, mais tarde, se revelou uma aventura muito grande. Havia repressão, mas nós nunca nos incomodamos com ela e fomos abrindo os espaços. Abrir espaços é como abrir cabeças: havia debates no COC, no Colégio Auxiliadora, na UNAERP; onde havia debate e discussão nós estávamos presentes e isso foi criando um espaço cultural alternativo.

O Cineclube Cauim funcionava na Rua Lafaiete, entre a Álvares Cabral e a Tibiriçá – onde havia um cinema – e as pessoas começaram a se aglutinar, num movimento que foi crescendo e fazíamos temporadas de grandes nomes do cinema (Semana Ingrid Bergman, Pasolinni, etc) e os amantes foram se aproximando e criando uma cultura local muito grande. Não existia apoio, era tudo na cara e na coragem. Era uma empresa que pagava um convidado, outra que pagava o artista; era uma escola que pagava os palestrantes, era tudo no improviso e com a participação de amigos nossos, da área empresarial que sempre foram contribuindo e colaborando e a coisa foi crescendo e se instituindo. Tudo que se institucionaliza morre, mas o Cauim é o maior exemplo de que não: o Cauim criou uma subcultura em Ribeirão Preto – de contestação, de presença, de politização, de amizade. Esta subcultura progrediu e criou outros núcleos e eu jogo a responsabilidade disso ao Cauim. Outros grupos, como o Ribeirão em Cena, do Gilson Filho, surgiram da experiência do Cauim: é possível fazer cultura, mas nunca é fácil, porque as empresas e o poder público, sobretudo, não investem, e pelo mínimo que se consegue é possível fazer coisas muito boas, como foram feitas.

Fernando Caxassa, o Mel, o Geraldo Noel, o Edvaldo Arantes... Depois vieram outros que se agregaram. Existe um grande número de pessoas e seria injusto eu esquecer qualquer nome – inclusive dos que nem aqui residem mais. Alguns morreram, como o Canarinho e o Sócrates (que se agregou depois, por conta das suas afinidades culturais com o Cauim desde o princípio, e não pelo futebol, como é comum as pessoas confundirem). Fundamentalmente, o Cauim existe por um nome só e este nome é Fernando Caxassa.

Digamos que de freqüência regular, não mais, por causa das minhas outras atividades. Volta e meia o Fernando me liga por conta de algum evento, ou de cinema, ou de encontro de amigos, essa cultura que o Cauim gerou é que é importante e que levou a projetos como o Templo da Cidadania, os projetos sociais do Cauim e isso é interessantíssimo. Regularmente o Fernando me liga e estamos sempre irmanados e a luta continua. As coisas hoje são mais fluidas, nós sabemos mais claramente tudo o que precisa ser feito. E, mais claramente, a gente sabe que está sozinho. Tudo começou muito modestamente e o Cauim se transformou no maior cineclube do mundo – esse passo foi maior que a perna – não só em termos de durabilidade, mas em termos de tamanhos físicos. Qual cineclube hoje mantém um cinema de mil lugares?

Agora, eu acho que, por falta de apoio, o Cauim não faz mais do que fez, que é ministrar cursos de cinema. Dar iniciação ao cinema, que é a função primordial de qualquer cineclube – não só ser um centro de debates sobre o cinema, mas o ensino de cinema, da técnica cinematográfica. O Cauim hoje precisa recuperar sua origem. Este ano tem uma emenda (embora de valor pequeno) para o Cauim. O grupo Ribeirão em Cena, por exemplo... Se não fosse pela verba que destinei enquanto vereador nos últimos três anos, já teria fechado. O que a gente pode fazer nesse sentido, a gente faz. Acabamos de editar uma coletânea de 13 livros. O que eu posso fazer enquanto da destinação de verbas para a cultura, eu faço, só que todo poder é limitado. Precisava haver maior envolvimento da iniciativa privada, que é assim que se viabilizam os projetos. Desde que os projetos sejam qualificados, que o façam, mas é difícil. Não é fácil propor e ter a concordância de empresários para projetos de cultura qualificada. De cultura maciça é fácil, pois o retorno é imediato.

O Cauim formou pessoas de maneira informal. Formou informalmente. Muita gente se tornou profissional por freqüentar o Cauim e os projetos que o Banco Ribeirão Preto tem patrocinado ao Cauim vem permitindo uma ação social importantíssima e eu acho que é um trabalho importante, mas o foco do Cauim mesmo é a questão cultural. A gastronomia é um elemento. O que eu cobro do Fernando é que o Cauim se volte para o cinema: formar cineastas, atores, produtores... Existem atividades e instituições afins. Deve haver um direcionamento da alta cultura – não desprezando a cultura popular – porque a alta cultura é cultura de qualidade e não de elite. A soma de esforços é que poderá criar um movimento cultural maior em Ribeirão Preto.

O Estado, no Brasil, é muito importante para subsidiar atividades. Mas o Cauim é um exemplo de que, independente do Estado, ou com a colaboração do Estado, você pode durar décadas e criar projetos interessantes. Eu acho que o Cauim, agora, tem que tomar um rumo de independência, de geração de renda, coisa que ele ainda não conseguiu. Não adianta ficar também à mercê da graça de governantes para que eles banquem projetos. A cultura de Ribeirão Preto nos últimos trinta anos está ou ligada, ou na órbita do Cauim. Quem não tem independência econômica, não tem independência ideológica. O Cauim sempre teve ideologia e precisa criar condições de sustento para mantê-la. Novas atitudes, novas propostas, não ficar à mercê do Estado, por exemplo, são ações cabíveis de serem feitas. Aqui em Ribeirão Preto ainda existe o coronelismo e o clientelismo, o favoritismo. O Cauim tem que manter a autonomia que sempre teve e permanecer, ou pelo menos, tentar ficar longe dos políticos.

Todos os meus livros e enquanto eu puder (e qualquer editora permitir), a Editora Cauim ou a chancela Cauim estará em todos os meus livros. É uma marca da minha vida, da vida do Fernando e eu carrego não só como uma homenagem. O Cauim é um estado de espírito, e divulgar este estado de espírito faz parte da cultura do Cauim. Eu ponho o Cauim nos meus livros como homenagem: ao grupo de amigos excepcional que criou um movimento extraordinário em Ribeirão Preto e inspirou dezenas de outros. Eu acho que é uma relação dialética e recíproca. Eu contribuo com o Cauim e o Cauim contribui comigo pela relevância que eu acho que é o projeto.

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