terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre Canções e Emoções


Vamos falar de música. Daquelas músicas que você sabe que gosta, mas tem vergonha de admitir para você mesmo e para os outros. Todo mundo tem a sua lista secreta. E não estou falando dessas canções que assolam nossos rádios, televisões e mentes. Estou falando daquelas canções que não são ouvidas por ninguém a não ser você, em algum momento do dia, cantarolando baixinho ou pensando na danada. Do nada, elas aparecem e somem, mas causam um prazer enorme quando relembradas e sentidas. Vamos falar dos cantores populares, sem que, para isso, seja necessário discursar sobre momentos históricos, sociais, políticos, filosóficos do nosso país. Também não vamos buscar aqueles significados estapafúrdios que alguns especialistas tentam advertir; como, por exemplo, encontrar nas raízes dos artistas (leia-se suas origens humildes e desprovidas) as razões para as sutis tristezas de suas cantigas.

Vamos falar de emoção. Da emoção que arrebata, sem pedir licença ou com algum pudor. Vamos falar de tempos passados. Vamos falar de valores, de sentimentos fraternos e maternos, de sensualidade, de inocência e de paixão. Ah, a paixão que dilacera os corações mais frágeis, mais dóceis e menos preparados para as agruras da vida. Sim, estamos falando de tudo o que uma simples canção pode causar em quem a ouve. Estamos falando de cantores populares; aqueles que moram no rádio da sua empregada doméstica, que lava a louça todos os dias cantarolando cancioneiros populares e recordando momentos felizes e significativos de suas vidas. Estamos falando de ídolos tortos, caídos e, mesmo assim, adorados. Estamos falando dos sons que vêm da cozinha, que extrapolam panelas, chiados, batuques e questões de classe e posse. Estamos falando de artistas que colocam seus corações na boca e sangram poesia.

Sempre tive preconceitos com a chamada Jovem Guarda. Não por enxergá-los como alienados (nunca fui por este caminho que é de praxe para os críticos), mas por realizarem canções que não me agradam sonoramente. O disco de Martinha, “Como é que vai ficar”, de 1981, quebra esses paradigmas. Não porque ela - maior voz do cenário ao lado de Wanderléia - deixe de cantar o que é de seu feitio; mas por carregar nas melodias a sua principal arma. Todas as canções, independentes de letra ou entoação vocal, são lindas. E um disco que encerra com a melancolia e a tristeza de "Berço de Marcela" merece todo o crédito. Os preconceituosos que me perdoem!



Tomo a liberdade aqui que reproduzir o texto da contracapa do disco, recém-lançado pelo selo Warner: Ouvi-la é tornar-se vulnerável às mais profundas emoções vinculadas ao amor. Da ternura simples ao deslumbramento desencadeado em "Marcela", desdobra-se um universo emocional vibrante que o vai conduzindo num crescente envolvimento de amor. Sem colorido intelectualista, Martinha caminha com o ouvinte em direção ao seu ponto vital sensitivo, ali onde as feridas doem mais e as cicatrizes representam medalhas. Dos sulcos deste disco para as veias e artérias, corre uma singular transfusão de emoção pura que fará bem a qualquer pessoa.

Numa leva de relançamentos promovidos pela Warner (através do selo independente Discobertas), Presente de Deus, grande exemplar de Agnaldo Timóteo dos anos 1980 tem sua edição em cd. Finalmente poderemos fazer justiça com o cantor (adorado por muitos e odiado por tantos outros), dono de voz potente e interpretações marcantes - ainda que contestáveis. Remetamos-nos então ao ano de 1986. Era (e é) surpreendente ouvir versões de músicas-ícone, como "Hino ao Amor", imortalizada por Edith Piaf; "Suave é a Noite"; "Doeu" e "Poeira de Estrelas". Ainda temos as dores emocionais causadas pela música-título e por “Conselho de Pai”, que fecha o disco de forma avassaladora. Esqueçamos os preconceitos e ouçamos de mente aberta essas canções que reverberam em nossos corações e mentes.


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