Vamos falar de
música. Daquelas músicas que você sabe que gosta, mas tem vergonha de admitir
para você mesmo e para os outros. Todo mundo tem a sua lista secreta. E não
estou falando dessas canções que assolam nossos rádios, televisões e mentes.
Estou falando daquelas canções que não são ouvidas por ninguém a não ser você,
em algum momento do dia, cantarolando baixinho ou pensando na danada. Do nada,
elas aparecem e somem, mas causam um prazer enorme quando relembradas e
sentidas. Vamos falar dos cantores populares, sem que, para isso, seja
necessário discursar sobre momentos históricos, sociais, políticos, filosóficos
do nosso país. Também não vamos buscar aqueles significados estapafúrdios que
alguns especialistas tentam advertir; como, por exemplo, encontrar nas raízes
dos artistas (leia-se suas origens humildes e desprovidas) as razões para as
sutis tristezas de suas cantigas.
Vamos falar de
emoção. Da emoção que arrebata, sem pedir licença ou com algum pudor. Vamos
falar de tempos passados. Vamos falar de valores, de sentimentos fraternos e
maternos, de sensualidade, de inocência e de paixão. Ah, a paixão que dilacera
os corações mais frágeis, mais dóceis e menos preparados para as agruras da
vida. Sim, estamos falando de tudo o que uma simples canção pode causar em quem
a ouve. Estamos falando de cantores populares; aqueles que moram no rádio da
sua empregada doméstica, que lava a louça todos os dias cantarolando
cancioneiros populares e recordando momentos felizes e significativos de suas
vidas. Estamos falando de ídolos tortos, caídos e, mesmo assim, adorados.
Estamos falando dos sons que vêm da cozinha, que extrapolam panelas, chiados,
batuques e questões de classe e posse. Estamos falando de artistas que colocam
seus corações na boca e sangram poesia.
Sempre tive
preconceitos com a chamada Jovem Guarda. Não por enxergá-los como alienados
(nunca fui por este caminho que é de praxe para os críticos), mas por
realizarem canções que não me agradam sonoramente. O disco de Martinha, “Como é
que vai ficar”, de 1981, quebra esses paradigmas. Não porque ela - maior voz do
cenário ao lado de Wanderléia - deixe de cantar o que é de seu feitio; mas por
carregar nas melodias a sua principal arma. Todas as canções, independentes de
letra ou entoação vocal, são lindas. E um disco que encerra com a melancolia e
a tristeza de "Berço de Marcela" merece todo o crédito. Os preconceituosos
que me perdoem!
Tomo a
liberdade aqui que reproduzir o texto da contracapa do disco, recém-lançado
pelo selo Warner: Ouvi-la é tornar-se vulnerável às mais profundas emoções
vinculadas ao amor. Da ternura simples ao deslumbramento desencadeado em
"Marcela", desdobra-se um universo emocional vibrante que o vai
conduzindo num crescente envolvimento de amor. Sem colorido intelectualista,
Martinha caminha com o ouvinte em direção ao seu ponto vital sensitivo, ali
onde as feridas doem mais e as cicatrizes representam medalhas. Dos sulcos
deste disco para as veias e artérias, corre uma singular transfusão de emoção
pura que fará bem a qualquer pessoa.
Numa leva de
relançamentos promovidos pela Warner (através do selo independente
Discobertas), Presente de Deus, grande exemplar de Agnaldo Timóteo dos anos
1980 tem sua edição em
cd. Finalmente poderemos fazer justiça com o cantor (adorado
por muitos e odiado por tantos outros), dono de voz potente e interpretações
marcantes - ainda que contestáveis. Remetamos-nos então ao ano de 1986. Era (e
é) surpreendente ouvir versões de músicas-ícone, como "Hino ao Amor",
imortalizada por Edith Piaf; "Suave é a Noite"; "Doeu" e
"Poeira de Estrelas". Ainda temos as dores emocionais causadas pela
música-título e por “Conselho de Pai”, que fecha o disco de forma avassaladora.
Esqueçamos os preconceitos e ouçamos de mente aberta essas canções que
reverberam em nossos corações e mentes.



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