A divulgação de uma obra como “Viver Cinema: O
Cineclube Cauim e seus trinta anos de história” é importante quando a
vislumbramos dentro de uma perspectiva histórica e revisionista. Do ponto de
vista atemporal, a obra é abrangente ao destacar o cineclube mais famoso da
cidade de Ribeirão Preto (SP) em meio a tantas mudanças sociais, econômicas e
políticas dentro do país – pois o mesmo surgiu durante o período conhecido como
Anistia Geral e Irrestrita (1979), e, para além de transmitir cinema, era um
espaço em que se consumiam novas idéias, novos sentimentos e velhos ideais. O
Cauim é, hoje, o maior cineclube em atividade no país inteiro, mantendo uma
sala de cinema de 800 lugares e inúmeros projetos paralelos que visam a
educação e a sociabilidade da população mais carente.
Existe dentro da obra a preocupação
em situar o leitor que não seja familiarizado com o tema, portanto, busca-se, a
todo instante, referências do período retratado em uma linguagem fácil e
extremamente acessível. Quanto ao surgimento dos cineclubes no Brasil,
remonta-se ao passado recente da cidade, quando o então morador-roteirista
Rubens Francisco Lucchetti (eterno mestre) criou o primeiro Centro Experimental
de Cinema, com o auxílio do então crítico Paulo Emílio Salles Gomes. O Cauim é
cria exclusiva de um único homem, Fernando José da Silva, o Kaxassa, natural de
Barretos, interior de São Paulo. Tendo feito Ciências Sociais na UNESP de Araraquara,
sempre mexeu com sua paixão, o cinema, e atrelou a ele outras importantes
manifestações (como o teatro e a música).
A pesquisa, concebida em três capítulos, abrange um
pouco do Brasil cultural que muitos de nós aprendemos a conhecer. O primeiro capítulo
apresenta a produção cinematográfica no Brasil, durante os anos 60-70 (o cinema
novo – vertente popular do cinema, tendo como nome mais forte o do baiano
Glauber Rocha; assim como a popularização do cinema nacional com as
pornochanchadas e a criação, pelos militares, da Embrafilme, principal
indústria brasileira de filmes) e o ressurgimento do cinema com apoios fiscais
e incentivos após o período Collor, contando com depoimentos de jornalistas
como Eduardo Torelli e Vébis Jr.
O segundo capítulo tem por finalidade apresentar,
rapidamente, as áreas culturais que foram seriamente afetadas pela ditadura
militar. Neste setor, músicas, livros, filmes; assim como artistas diversos
foram prejudicados por atos escabrosos de nossos militares, que, falsamente,
pregavam a política da moral e dos bons costumes, tentando, sem sucesso, vender
uma imagem que não lhes convinha (a de próximos da população). Além disso,
busca-se uma aproximação do que era produzido à época e os crimes políticos que
se avolumavam com o tempo em jornais impressos e televisivos.
O terceiro capítulo, sob o prisma do historiador Paul
Thompson, tem a finalidade de inserir os cineclubes dentro do contexto que se
vivia à época (os primeiros cineclubes no Brasil e em Ribeirão Preto e,
finalmente, o Cauim, como mais um dos muitos que, à época, tinham uma conduta
diferenciada e, por isso mesmo, contestada). É neste capítulo que está
concentrada a maior parte das falas dos entrevistados. O texto tem a função de
traçar a trajetória do cineclube dentro do cenário cultural brasileiro – e,
além disso, identificá-lo como um dos únicos ainda em atividade, não só na
cidade, como no Brasil. São trinta anos de história, resumidos em poucas
páginas, é bem verdade.
O livro, portanto, ultrapassa o
sentimento de homenagem. Tem a função primordial de demonstrar como um grupo
pequeno de jovens (alguns já falecidos) foi ávido em seus princípios, sempre
agregando valores e sentimentos às inúmeras ações culturais, sociais e
políticas na cidade de Ribeirão Preto. O livro foi lançado dentro de uma
coleção denominada “Nossa História”, de dez volumes, que visa divulgar e
propagar diversos panoramas da cidade de Ribeirão Preto em períodos distintos.
Escolhidos através de editais, os textos que a compõem são, em sua maioria,
acadêmicos. O autor, Valter Martins de Paula, é jornalista e historiador. É
também um apaixonado pela Sétima Arte.
O lançamento oficial aconteceu no dia 29 de maio de
2012, às 18h30, dentro da 12° Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, evento
que reúne literatura, música e ação social e que tem enorme repercussão pela
cidade. Estavam presentes, além dos dois vereadores que destinaram as verbas -
André Luiz da Silva (PCdoB) e Gilberto Abreu (PV) -, a Secretária da Cultura,
Sra. Adriana Silva; a Secretária da Educação, Sra. Débora Vendramini Durlo e
convidados meus, entre amigos, profissionais e colegas. Fernando José da Silva,
o Kaxassa, estava presente também, e tomou o microfone para informar que a obra
passaria para as mãos da Petrobrás.
Uma coisa engraçada e até conflitante durante a
escrita do livro foi a constatação de que o Cineclube Cauim sobrevive graças a
ações culturais que extrapolam a simples exibição de um filme em uma sala de
cinema. Hoje, o espaço se desdobra em muitos e ainda coexistem diversas ações
dentro da cidade - como o teatro SantaRosa bancado pelo Cauim e bandas de
música; além de choperia, sebo e até restaurante!
O legal de tudo isso é poder perceber que os ideais
de antigamente ainda persistem (pois todos os envolvidos com o cineclube - e
olha que são muitos espalhados pela cidade e região afora - continuam à margem
daquilo que é considerado normal). Logicamente os ideais de guerrilha, luta
armada, diferença política, se esvaíram. Mas ainda existe a questão social
muito forte no sentido de poder se sentir útil para a população; principalmente
a mais carente da cidade. E isso, como se vê, é um sentimento que escancara a
principal face do Cauim hoje.
Não acredito que os cineclubes morram daqui pra
frente. Logicamente seus espaços físicos não existirão mais,dando lugar a
supermercados, bancos, igrejas, bingos, grandes lojas, etc. Mas sempre haverá
aquele grupo que resiste e que é apaixonado por cinema, fazendo-o ir para
frente - eu mesmo me considero parte de um grupo forte dentro de Ribeirão
Preto. Interessante pensar sobre as novas demandas e exigências de mercado hoje
em dia quando o assunto é a Sétima Arte. O Cauim é um espaço mutante, que se
adaptou conforme os tempos e as vontades da sociedade (mudou de endereço, se modernizou,
lançou mão da bilheteria em prol da divulgação de cinema). Logo, ele é a prova
cabal de que é possível resistir e continuar ativo e atuante em mais de trinta
anos de estrada.
Triste é mesmo irmos ao cinema e pagarmos uma quantia
absurda de dinheiro para vermos lixos como "O Corvo" e a absurda
produção nacional "E aí, Comeu?" (que merece uma crítica à parte de
toda esta matéria, a bem da verdade), para citar dois exemplos mais recentes. O
que deveria e poderia existir é o cineclube na sua forma mais primordial e
clássica: mostrar e divulgar o cinema; mas, acima de tudo, ser um artífice do
FAZER CINEMA. Paulínia, a cidade do interior, se tornou um polo de cinema.
Ribeirão Preto vem tentando a anos um espaço neste panteão - existe, inclusive,
um grande estúdio localizado bem no centro da cidade. Outras cidades (de maior
ou menor alcance) poderiam tentar uma mudança neste prisma; despertando
interesses e afinidades.
Vale lembrar que vários atores, atrizes, diretores e
produtores que freqüentaram o Cauim têm ou tiveram merecida projeção. São os
casos de Débora Duboc, Guilherme de Almeida Prado (diretor do excepcional e
incompreendido Onde Estará Dulce Veiga?), Jair Correia (que dirigiu o brilhante
exercício de estilo Shock, em 1983), e do falecido Jorge Andrade (autor de
lindas novelas como Os Ossos do Barão, Os Gigantes, Gaivotas e O Grito, para as
Redes Globo e Tupi de Televisão durante os anos '70), além de João Batista de
Andrade, que lançou seu filme O Homem que virou Suco pela primeira vez na sala de
exibição do Cauim, em 1981!
O Cauim fez, faz e pelo visto sempre fará história. E
este é apenas um pequeno pedaço de toda esta caminhada. É um prazer poder
desfrutar de tudo isso ao lado destes malucos. E que venham outros cineclubes
em sua cola!


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