terça-feira, 3 de julho de 2012

Um Cineclube no meio do Mundo



            A divulgação de uma obra como “Viver Cinema: O Cineclube Cauim e seus trinta anos de história” é importante quando a vislumbramos dentro de uma perspectiva histórica e revisionista. Do ponto de vista atemporal, a obra é abrangente ao destacar o cineclube mais famoso da cidade de Ribeirão Preto (SP) em meio a tantas mudanças sociais, econômicas e políticas dentro do país – pois o mesmo surgiu durante o período conhecido como Anistia Geral e Irrestrita (1979), e, para além de transmitir cinema, era um espaço em que se consumiam novas idéias, novos sentimentos e velhos ideais. O Cauim é, hoje, o maior cineclube em atividade no país inteiro, mantendo uma sala de cinema de 800 lugares e inúmeros projetos paralelos que visam a educação e a sociabilidade da população mais carente.



            Existe dentro da obra a preocupação em situar o leitor que não seja familiarizado com o tema, portanto, busca-se, a todo instante, referências do período retratado em uma linguagem fácil e extremamente acessível. Quanto ao surgimento dos cineclubes no Brasil, remonta-se ao passado recente da cidade, quando o então morador-roteirista Rubens Francisco Lucchetti (eterno mestre) criou o primeiro Centro Experimental de Cinema, com o auxílio do então crítico Paulo Emílio Salles Gomes. O Cauim é cria exclusiva de um único homem, Fernando José da Silva, o Kaxassa, natural de Barretos, interior de São Paulo. Tendo feito Ciências Sociais na UNESP de Araraquara, sempre mexeu com sua paixão, o cinema, e atrelou a ele outras importantes manifestações (como o teatro e a música).



A pesquisa, concebida em três capítulos, abrange um pouco do Brasil cultural que muitos de nós aprendemos a conhecer. O primeiro capítulo apresenta a produção cinematográfica no Brasil, durante os anos 60-70 (o cinema novo – vertente popular do cinema, tendo como nome mais forte o do baiano Glauber Rocha; assim como a popularização do cinema nacional com as pornochanchadas e a criação, pelos militares, da Embrafilme, principal indústria brasileira de filmes) e o ressurgimento do cinema com apoios fiscais e incentivos após o período Collor, contando com depoimentos de jornalistas como Eduardo Torelli e Vébis Jr.

O segundo capítulo tem por finalidade apresentar, rapidamente, as áreas culturais que foram seriamente afetadas pela ditadura militar. Neste setor, músicas, livros, filmes; assim como artistas diversos foram prejudicados por atos escabrosos de nossos militares, que, falsamente, pregavam a política da moral e dos bons costumes, tentando, sem sucesso, vender uma imagem que não lhes convinha (a de próximos da população). Além disso, busca-se uma aproximação do que era produzido à época e os crimes políticos que se avolumavam com o tempo em jornais impressos e televisivos.

O terceiro capítulo, sob o prisma do historiador Paul Thompson, tem a finalidade de inserir os cineclubes dentro do contexto que se vivia à época (os primeiros cineclubes no Brasil e em Ribeirão Preto e, finalmente, o Cauim, como mais um dos muitos que, à época, tinham uma conduta diferenciada e, por isso mesmo, contestada). É neste capítulo que está concentrada a maior parte das falas dos entrevistados. O texto tem a função de traçar a trajetória do cineclube dentro do cenário cultural brasileiro – e, além disso, identificá-lo como um dos únicos ainda em atividade, não só na cidade, como no Brasil. São trinta anos de história, resumidos em poucas páginas, é bem verdade.



            O livro, portanto, ultrapassa o sentimento de homenagem. Tem a função primordial de demonstrar como um grupo pequeno de jovens (alguns já falecidos) foi ávido em seus princípios, sempre agregando valores e sentimentos às inúmeras ações culturais, sociais e políticas na cidade de Ribeirão Preto. O livro foi lançado dentro de uma coleção denominada “Nossa História”, de dez volumes, que visa divulgar e propagar diversos panoramas da cidade de Ribeirão Preto em períodos distintos. Escolhidos através de editais, os textos que a compõem são, em sua maioria, acadêmicos. O autor, Valter Martins de Paula, é jornalista e historiador. É também um apaixonado pela Sétima Arte.

O lançamento oficial aconteceu no dia 29 de maio de 2012, às 18h30, dentro da 12° Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, evento que reúne literatura, música e ação social e que tem enorme repercussão pela cidade. Estavam presentes, além dos dois vereadores que destinaram as verbas - André Luiz da Silva (PCdoB) e Gilberto Abreu (PV) -, a Secretária da Cultura, Sra. Adriana Silva; a Secretária da Educação, Sra. Débora Vendramini Durlo e convidados meus, entre amigos, profissionais e colegas. Fernando José da Silva, o Kaxassa, estava presente também, e tomou o microfone para informar que a obra passaria para as mãos da Petrobrás.

Uma coisa engraçada e até conflitante durante a escrita do livro foi a constatação de que o Cineclube Cauim sobrevive graças a ações culturais que extrapolam a simples exibição de um filme em uma sala de cinema. Hoje, o espaço se desdobra em muitos e ainda coexistem diversas ações dentro da cidade - como o teatro SantaRosa bancado pelo Cauim e bandas de música; além de choperia, sebo e até restaurante!

O legal de tudo isso é poder perceber que os ideais de antigamente ainda persistem (pois todos os envolvidos com o cineclube - e olha que são muitos espalhados pela cidade e região afora - continuam à margem daquilo que é considerado normal). Logicamente os ideais de guerrilha, luta armada, diferença política, se esvaíram. Mas ainda existe a questão social muito forte no sentido de poder se sentir útil para a população; principalmente a mais carente da cidade. E isso, como se vê, é um sentimento que escancara a principal face do Cauim hoje.

Não acredito que os cineclubes morram daqui pra frente. Logicamente seus espaços físicos não existirão mais,dando lugar a supermercados, bancos, igrejas, bingos, grandes lojas, etc. Mas sempre haverá aquele grupo que resiste e que é apaixonado por cinema, fazendo-o ir para frente - eu mesmo me considero parte de um grupo forte dentro de Ribeirão Preto. Interessante pensar sobre as novas demandas e exigências de mercado hoje em dia quando o assunto é a Sétima Arte. O Cauim é um espaço mutante, que se adaptou conforme os tempos e as vontades da sociedade (mudou de endereço, se modernizou, lançou mão da bilheteria em prol da divulgação de cinema). Logo, ele é a prova cabal de que é possível resistir e continuar ativo e atuante em mais de trinta anos de estrada.



Triste é mesmo irmos ao cinema e pagarmos uma quantia absurda de dinheiro para vermos lixos como "O Corvo" e a absurda produção nacional "E aí, Comeu?" (que merece uma crítica à parte de toda esta matéria, a bem da verdade), para citar dois exemplos mais recentes. O que deveria e poderia existir é o cineclube na sua forma mais primordial e clássica: mostrar e divulgar o cinema; mas, acima de tudo, ser um artífice do FAZER CINEMA. Paulínia, a cidade do interior, se tornou um polo de cinema. Ribeirão Preto vem tentando a anos um espaço neste panteão - existe, inclusive, um grande estúdio localizado bem no centro da cidade. Outras cidades (de maior ou menor alcance) poderiam tentar uma mudança neste prisma; despertando interesses e afinidades.

Vale lembrar que vários atores, atrizes, diretores e produtores que freqüentaram o Cauim têm ou tiveram merecida projeção. São os casos de Débora Duboc, Guilherme de Almeida Prado (diretor do excepcional e incompreendido Onde Estará Dulce Veiga?), Jair Correia (que dirigiu o brilhante exercício de estilo Shock, em 1983), e do falecido Jorge Andrade (autor de lindas novelas como Os Ossos do Barão, Os Gigantes, Gaivotas e O Grito, para as Redes Globo e Tupi de Televisão durante os anos '70), além de João Batista de Andrade, que lançou seu filme O Homem que virou Suco pela primeira vez na sala de exibição do Cauim, em 1981!

O Cauim fez, faz e pelo visto sempre fará história. E este é apenas um pequeno pedaço de toda esta caminhada. É um prazer poder desfrutar de tudo isso ao lado destes malucos. E que venham outros cineclubes em sua cola!


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