quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fernando Kaxassa


Leiam na íntegra a entrevista concedida por Fernando José da Silva, o Kaxassa (criador e mantenedor do Cineclube Cauim de Ribeirão Preto) para o meu livro recém-lançado, intitulado "Viver Cinema: o Cineclube Cauim e seus trinta anos de História", resultado da minha pesquisa de conclusão de curso para a licenciatura em História pelo Centro Universitário Barão de Mauá. O lançamento aconteceu na 12° edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no dia 29 de maio.


ENTREVISTA FERNANDO KAXASSA – 27 de janeiro de 2012






Dirigiu e encenou peças teatrais com grupos amadores de Barretos e Ribeirão Preto entre ’74 e ’78; Sócio-fundador e 1° Secretário do Clube de Cinema de Ribeirão Preto em 1979 e 1° semestre de 80; Aluno do curso de Ciências Sociais da UNESP de Araraquara desde 79; 2° Secretário do Cine-Foto Clube de Ribeirão Preto em 79 e 80; programador e conselheiro do Zoom Cine Clube de Araraquara em 79; Atualmente colabora com vários cineclubes do estado de São Paulo. Fotógrafo. Barretense.

O que você pensa quando olha para o passado?

Penso que eu perdi muito tempo da minha vida, que eu poderia ter bebido mais (risos). Brincadeira, eu penso que isso é muito legal... Era uma loucura, a gente não tinha nenhuma pretensão e isso deu certo.

Quando transformou isso num meio de vida?

Até hoje eu não transformei. Até hoje, se eu não batalhar outras coisas, eu não consigo viver. Do Cauim não se vive. Eu tenho que fazer programa de TV... Por exemplo, agora (na hora da entrevista) eu vou gravar quatro programas. Já fiz coisa à beça, como produtor... Do Cauim mesmo, só pauleira. Agora preciso colocar o programa pra gravar porque senão, já viu...

Comente sobre sua infância e adolescência quanto à cultura.

Eu nasci em Barretos, na época, uma cidade bem pequenininha. Já tinha essa tradição de folclore, muito mais do que hoje, quando dizemos “terra do peão”, quando a cidade se transformou em algo pra turistas. Minha infância todinha foi marcada por essas festas tradicionais, de congadas, folias de reis, etc. Eu passava as férias em Jaborandi, com meus avos. Era uma coisa engraçada, porque era uma família de negros que “adotou” um loiro de olho azul, meu pai. Uma coisa interessante nisso tudo é que até Jaborandi tinha cinema. Barretos tinha três cinemas: o Cine Barretos, o Tetéia e o Centenário e meu padrinho era dono desses dois, portanto eu não pagava entrada. Meu vizinho também não pagava e a gente ia ao cinema todo dia, o tempo todo.  O forte mesmo era matinê. Nos sábados e domingos tinha matinal às dez da manhã e matinê às duas em um dos cinemas; quatro e meia da tarde em outro. Eram três sessões por dia. Eu brinco muito com o Marco Lucchetti, porque acho que sou o brasileiro que mais viu western. Barretos também sempre teve uma tradição muito forte de teatro. De Barretos veio Jorge Andrade (que depois escreveu novelas para a Globo); o Luiz Carlos Arutim (que participou do meu primeiro filme e tinha acabado de ganhar o prêmio Molière); Américo Rosário de Souza. Eu era uma criança que morava em frente ao José Expedito Marques, que morreu não faz muitos anos, que era o maior incentivador de teatro de Barretos. Era professor, trabalhava e escrevia teatro, vivia teatro 24 horas por dia. Eu era bem mais novo; me lembro de ver os ensaios do Expedito que eram no colégio que funcionava em frente à farmácia do meu pai, eu vi muito ensaio; e com sete, oito anos, começaram a me chamar para encenar peças. Eu brinco e falo que o primeiro papel que eu fiz foi o menino Jesus, portanto, comecei mal. Fui me apaixonando por essas coisas aos poucos.

Em Barretos não existia muito essa coisa de televisão, lá nem pegava Globo. Isso em 1973, 1974... A Globo só funcionava em um bar chamado Caju, as outras TVs só tinham a Rede Tupi. E durante semana, a programação da Tupi só começava depois das quatro horas da tarde; nós íamos pra escola e à tarde a gente trabalhava. Meu pai morreu muito cedo, então a gente começou a trabalhar cedo. Depois começamos a criar o hábito de ver novelas, mas isso foi bem depois. Mas, a Rede Tupi tinha uma sessão de sábado que se chamava Sessão Comédia Brasileira. Foi lá que vi pela primeira vez o filme O Grande Momento, do Roberto Santos, e esse filme pirou minha vida. Vi A Hora e a vez de Augusto Matraga também, mas o filme do Roberto Santos foi o que mudou a minha vida por inteiro.  Eu tinha 9, 10 anos. Eu sempre odiei futebol, nunca fiz um gol. O Sócrates brincava comigo, ele até escreveu na revista Carta Capital um artigo a meu respeito dizendo que eu era o centro-avante que nunca fez um gol na vida. A minha vida eram as artes. Quando o meu pai morreu a gente vendeu a farmácia que tínhamos e eu estava com 13, 14 anos, na época. Eu já tinha encasquetado que queria seguir esse caminho das artes.

Na escola eu descobri depois de muitos anos que eu tinha dislexia e só gostava de estudar História. Eu queria juntar essas duas paixões de algum jeito, queria era trabalhar com isso. Eu já tinha uma irmã que morava em Ribeirão Preto e vir pra cá foi fácil. Quando cheguei aqui, dei de cara com nomes como o Vacarinni. A força de Ribeirão eram as artes plásticas. E a boemia. A boemia me abriu espaço pra muitas coisas porque eu conheci muita gente nas ruas. E logo comecei a fazer parte dos grupos marginais de teatro. Eu sempre fui muito tímido e antes de entrar nos palcos eu tomava uma cachacinha. Na minha adolescência, já adotei o nome, porque o pessoal me conhecia como “o Fernando da cachaça”. Eu sempre fui muito novo e muito velho. Era uma coisa esquisita, aconteceu isso com o Sócrates também, o tempo melhorou muito a gente. Eu era um cara que com 16, 17 anos você olhava pra mim e pensava que eu tinha 100 anos. Eu era muito magro, bebia muito... O tempo deu uma melhorada em mim. Sempre fui o mais novo dos grupos que formei. E com 16, 17 anos, eu já estava fundando o que viria a ser o Cauim. A minha adolescência foi formar o Cauim. Não me lembro de ter outro tipo de adolescência. O grupo já existia, mas o nome veio depois; da palavra Cauim, que aprendi com sete, oito anos e que achava a coisa mais linda do mundo. Ribeirão Preto foi fundamental pra minha formação enquanto pessoa porque aqui existia um grupo com uma causa em comum. Era uma ditadura militar e queríamos uma abertura.

Eu fiz supletivo, sempre estudei muito mal, por ser disléxico. Mesmo assim, fui fazer faculdade de Ciências Sociais com 17 anos. Fui pra Araraquara e fui direto para o Zoom Cineclube, por intermédio de um cara que tinha conhecido aqui em Ribeirão, o Paulo Pereira, ex-preso político por quatro anos e professor de Geografia, que já havia feito cursos de teatro comigo. Um dia ele me ligou e me perguntou o que eu faria em Araraquara e falou pra eu chegar lá e ir direto tomar conta do enorme cineclube que existia. Juntamos nossas forças: Zoom com Cauim.

Todos os que fizeram parte do Cauim no começo você já conhecia de antes?

Mais ou menos. O Fê, por exemplo, eu conheci porque namorávamos a mesma menina. Ele largou dela e foi pra Brasília, e ela ficou uns seis, sete meses sozinha. Foi quando começamos a namorar e ele tinha sido assistente de fotografia do Amêndola... Quando finalmente nos conhecemos eu pensei que fosse apanhar, quando na verdade, foi um complemento. Ele era fotógrafo e precisava de gente que soubesse unir grupos distintos, eu era disléxico... No meu primeiro ano de faculdade eu conheci o Marcos Valério Diamantino, e esse cara mudou minha vida. A gente tinha a mesma idade, tínhamos morado na mesma cidade e ainda não nos conhecíamos. Ele largou mão das Ciências Sociais lá em Araraquara e veio fazer Jornalismo na UNAERP – foi considerado o melhor texto publicitário de Ribeirão. Ganhava todo tipo de prêmio; escrevia muito bem, escreve muito bem. Voltou pra Barretos e hoje trabalha na TV Soares de lá. Ele era o que faltava para nossa dupla: o Fê e eu, doidos; e o Marcos a cabeça que pensava por nós dois, pois ele não bebia... Enquanto eu tocava o bar do D.A. ele voltava pra casa e escrevia. A gente trocava idéias de madrugada, pois morávamos na mesma casa. O Fê sempre desenhava o que a gente ia fazer, fazia storyboards... Daí vem a origem do grupo, de nós três. Mas, no mesmo andamento, foi entrando muita gente, pelas atividades de teatro; muita coisa de cinema. O grupo cresceu, a gente queria mudar o país. No começo, nosso objetivo era muito claro. A gente tinha como questão de honra derrubar a ditadura militar. A gente só juntou aquele grupo todo porque nós pensávamos que poderia haver revolução pela cultura. O objetivo nosso era fazer cinema em primeira etapa, mas ao mesmo tempo, tinha esse negócio da ditadura. O Cineclube era o que mantinha a gente em contato com o povo. Muitos amigos meus queriam ser cineastas; eu sempre gostei muito de fazer cinema, dirigi não sei quantas mil propagandas; mas eu gosto muito de cineclube, do movimento cultural. Quando o povo começou a ir pra São Paulo, o Roberto Santos chegou pra mim e disse “Se você for embora ficará um rombo de cineclube no interior. Não queria que fosse você a ir para o sacrifício, porque você tem o dom natural do cineclube”. Daí, eu fiquei. Foi quando aluguei a sala da Rua Lafaiete, 374.

E o Lucchetti?

Eu não conhecia o Lucchetti porque ele morava no Rio. Foi o maior barato, porque ele veio pra Ribeirão e eu ainda não o conhecia. Muitas pessoas falavam que nós precisávamos conhecê-lo e nós fomos para o Rio atrás dele. Quando a gente chegou lá demos de cara com o Alex Viany, pai do Cinema Novo; o Wilson Grey e eles disseram que ele morava em Ribeirão. “Ele era muito tímido, ficou cinco anos escrevendo pra mim morando no Rio, mas a gente nunca se encontrava”. Daí eu fiquei louco. Voltei, bati lá na casa dele e no segundo dia que a gente se conhecia ele entrou e ficou. Ele e o filho dele, o Marquinho, que tá aqui até hoje. No caso deles, foi o contrário. O cineclube já existia e eles nunca saíram dele. O Cauim nunca parou: foi crescendo, veio o Collor; fechamos a sala, daí veio outra... O movimento é contínuo.

Você não consegue sobreviver só do Cauim...

Sobreviver só com o Cauim é impossível, o Cauim é uma ONG. O Cauim tem custo. Ele, hoje, custa 160 mil reais. Se você não tiver patrocinador, você não tira isso. As pessoas que trabalham com o Cauim trabalham em outras coisas. O Odônio é empresário, o Sócrates vivia de palestras, eu faço programa de televisão... Dentro do Cauim são só os funcionários. O Cauim é uma coisa pra você dedicar a vida a ele, não ele a você (risos). O maior barato é a série de outras coisas que o Cauim faz; as outras parcerias. Pra nos mantermos mesmo, só trabalhando em outras áreas, ralando... Ralando não, porque fazer televisão, pra mim, é uma delícia. Antigamente, não existia esse negócio de lei. Quando começamos não existia nada. Antigamente, era diferente. Você alugava uma sala de cinema de 300 lugares para passar filmes que eles chamavam “de arte”. Graças, a Deus não, porque sou ateu (risos), mas hoje você vai à locadora e encontra tudo. O cineclube tinha essa função de apresentar esses filmes de arte. Nessa época, tinha um público que pagava e que mantinha o espaço funcionando. A coisa toda era sustentada somente pela bilheteria. Hoje é impossível você fazer isso. No lugar onde hoje funciona um cinema de 800 lugares poderia funcionar uma igreja, um supermercado, um banco; coisas que dão mais lucro. Na verdade, o custo deste projeto cultural cresceu muito.

Hoje vocês têm coisas que não são relacionadas diretamente ao cinema...

Na verdade, eu acho que isso poderia passar pela cabeça das pessoas, inclusive do Gilberto, que era membro do grupo, por eu ser um apaixonado por cinema e ser mais ou menos o líder do grupo. Mas as pessoas envolvidas com o Cauim sempre gostaram de outras coisas que não o cinema, como o teatro e a música. O cinema é o que mais marca. Por mais que o Cauim faça e participe de outros projetos, o cinema é que fica marcado, porque lá vão mais de mil pessoas; e hoje nós precisamos salvar o cinema para a população carente. Olha a loucura que nós inventamos... A maior mentira que existe no Brasil é aquela de que, os americanos, que distribuem os filmes no país, pra justificarem o aumento do ingresso de setenta centavos para três dólares, precisaram tirar os cinemas dos centros das cidades e ir pra shoppings. O povão não abandonou o cinema; o cinema que abandonou o povão. Nós conversamos isso com o Gilberto Gil, na época em que ele era ministro da Cultura, via Leopoldo Nunes, de que precisávamos resgatar o cineclube. “Precisamos abrir o cinema pra todo mundo; resgatar o público de cinema. Depois que ele estiver dentro, aí começar cursos de produção”. Tem um punhado de gente no Cauim produzindo, tem que ter talento. Na verdade, o meu principio nunca foi o de produzir. Pode ter sido no começo, mas hoje, a minha paixão é arte e educação. Quando começamos a ver que a escola poderia freqüentar o cinema e lá dentro passar filmes, eu caí de cabeça. Sempre gostei do movimento cultural. Quando produzo um programa isso é o que importa pra mim, naquele momento. O que eu gosto do Cauim é o alcance social que ele tem. Por que existe o curso de culinária dentro do Cauim? Não é porque gostamos de comer, ao contrário. É porque estávamos um dia com um grupo de pais de alunos que participam do Templo da Cidadania e eles precisavam comer, aliás, eles participavam das atividades por causa do lanche que era servido. É por isso que conseguimos atrair mais de mil pessoas por dia, às vezes, quatro mil pessoas, dentro de um espaço fechado.

Eu vou te falar a verdade: da minha cabeça, o cineclube era uma coisa passageira, de cinco anos, mais ou menos. Mesmo porque, nunca pensei que fosse viver mais do que 25 anos. Eu achava que ia morrer logo; eu tinha uma saúde precária, bebia como um louco, fumava quatro maços de cigarro por dia. Na minha cabeça, eu não tinha essa visão de futuro, as coisas eram pra enquanto desse tempo de fazê-las. Se eu não ia fazer 30 anos, por que o Cauim faria? Nada mudou, eu cheguei aos 51 anos de idade. Tive Hepatite B, parei um ano de beber, voltei a beber... Eu fui levando a vida e o Cauim faz parte disso tudo. Fecho hoje; abro amanhã. Acaba o dinheiro, vamos correndo atrás... Eu não paro pra pensar o que o Cauim vai ser hoje ou amanhã. Tudo é maravilhoso e a gente faz parte de tudo isso. Aonde isso nos levará eu não sei. Eu tenho grandes idéias que já foram discutidas com o Gilberto, por exemplo, como uma Universidade Livre de Cidadania; a construção de um “cinema do lixo” – desde produção até chegar à cadeira do cinema, toda de material do lixo.

Eu não sei bater máquina; não sei usar computador. Eu escrevo a lápis. A minha cabeça não para, são 24 horas pensando em projetos. Vários amigos meus dizem “Kaxassa, você é o único cara chato no mundo que não para de pensar em projeto”. Fazemos coisas loucas, como passar três dias inteiros bebendo e no final desses três dias, estou pensando... Sou o vagabundo que mais trabalha no mundo. Eu vivo por e para o Cauim.

O processo de conhecer as pessoas foi algo que aconteceu naturalmente?

Se você não for atrás das pessoas, não vira nada. Hoje em dia tocar o Cauim é fácil, todos conhecem as pessoas que estão envolvidas com ele. No começo, quando éramos o Fê e eu, é que era difícil. Você tinha que bater na casa das pessoas com a cara de pau de costume. Usávamos barbas de hippie, roupas de hippie, fumávamos o mesmo cigarro porque não tínhamos dinheiro. Mas o que não tínhamos em dinheiro a gente tinha de consciência: Ou a gente fala com esse pessoal ou não tem Cauim. Eu tomava três, quatro copos de cachaça e ia; nem me tocava que estava com aquele bafão. Era tudo na cara-dura, uma cara de pau tremenda porque era tudo vontade de conhecer as pessoas. Eu queria conhecer o Roberto Santos, então, bati na porta dele e falei que queria conhecê-lo. Era tudo assim.

E o cineclube sempre existiu no mesmo lugar?

O cineclube não tinha lugar fixo no começo. Passávamos os filmes nas escolas, na Barão de Mauá, no COC, na praça; era tudo em 16 mm. Depois tivemos o Cineclube Ribeirão Preto, que alugavam uma vez por semana em cada cinema. Cine São Paulo, etc. Depois alugamos a Rua Lafaiete, 1084, onde hoje funciona o Ribeirão em Cena. Ficamos lá até 1981. Depois nos mudamos pra uns números pra baixo, 374, onde hoje funciona uma igreja. Ficamos até o Collor, quando fomos montar para o Estado as Oficinas Culturais. O Fernando Morais, na época secretário estadual da Cultura, chamou a gente pra fazer essas Oficinas. Montamos no Espaço Candido Portinari, que existe até hoje. Depois voltamos com o Banco Ribeirão, a Agência Ribeirão, que funcionou até agora. Aqui, no Templo da Cidadania, estamos há 10 anos. Era uma casa de família, que alugamos para ser a sede de tudo. O Cauim é só a sala de cinema. Estou lá bem menos do que eu gostaria de estar; porque fico mais em bancos, secretarias e prefeitura pra pedir dinheiro. Vou à Prefeitura fazer projetos, etc.

Em 33 anos, você se arrepende de alguma coisa?

Puta que pariu, cara. Não tenho do que me arrepender. Minha vida é pra arriscar. Eu nunca tive planos, eu nunca pensei “nós vamos fundar o Cauim para daqui um ano comprar uma sala”; meu plano é o dia-a-dia. O passado eu acho chato; não tenho saudades, não sou saudosista. Eu tenho saudade, sim, dos amigos que eu perdi. Do Canarinho, do Sócrates. Eu não consigo entender que um morreu há quatro anos, o outro há dois meses, isso eu não me conformo. Isso me magoa profundamente, eu acho a maior injustiça do mundo. Agora, do passado, eu não tenho saudades. Pra quem vive a minha vida, não dá pra ter planos futuros. Se eu fosse engenheiro, por exemplo, seria a mesma coisa. Eu tenho um filho só; estou com a mãe dele tem 30 anos. Eu nunca pretendi ter filhos, por causa da vida louca que eu levava. Eu fui o cara que mais queimei coisas: meu pai me deixou uma casa, ganhei dinheiro com propaganda e eu não tenho nada. Não tenho carro, não tenho casa, e me sinto o cara mais feliz do mundo por não ter nada. Eu tenho uma vida que vou vivendo. Eu gosto de sonhar com as coisas que estão na minha frente, que estão acontecendo e eu vou caminhando com elas. Minha família hoje é muito diferente de mim, não consigo me enxergar no meu filho, levamos vidas opostas, porque ele nunca teve essa ligação com cinema. Ele vai fazer Biologia; a mãe dele fez UNICAMP... Nós lemos bastante juntos.

E Ribeirão Preto, em termos culturais? Hoje é diferente do que no passado?

Naquela época tinha uma coisa muito interessante. Há trinta anos, Ribeirão Preto consumia cultura com uma voracidade muito grande, porque não tinha opção. Era a ditadura militar, muita gente em Ribeirão foi presa, a cidade foi considerada “a Moscou brasileira”. Eu cheguei a ser preso por passar o filme Je Vous Salut Marie... Cheguei a ser preso por tráfico de uma coisa que eu detesto que é maconha. Eu posso beber o que for, que não tem problema. Basta um cigarro de maconha ser aceso perto de mim e eu passo mal, vomito... Me envolvi com outras drogas também, claro, afinal, eu fui júri de cinema em festivais nos anos 80, poxa. Mexia com tudo, mas nunca fui um viciado. Mesmo pra beber, tem que haver um ritual. Eu não sei beber pouco; tem que ser uns três, quatro dias bebendo. Eu gosto de bar. Ribeirão tinha esse público, atraía os estudantes. A gente falava que quando a abertura viesse a coisa ia ficar mais forte, quando, na verdade, não ficou. Cada um foi pra um lado e eu não culpo ninguém não, Ribeirão é uma cidade como qualquer outra: tem muita coisa legal e tem muita coisa chata. A USP, por exemplo, tinha que ser dentro da cidade. O cineclube, quando era na Mauá, era muito forte... Tinha a Suzete, o Lafaiete... O cineclube da Mauá nos dava dinheiro pra que pudéssemos chamar os palestrantes... Exibíamos os filmes no Ginásio Jumbão, de 400 lugares e sempre lotava. Vários e vários cineastas vieram por conta dos Diretórios Acadêmicos. E isso, hoje, acabou. Isso me deixa puto, me entristece mesmo. Apesar de eu nunca ter sido muito membro dos Movimentos Estudantis porque eu comecei muito cedo no Cauim; eu sempre gostei e admirei essas movimentações. Eu era sempre chamado pelas chapas a participar. Independente de quem ganhasse, eu cuidava do aspecto cultural da coisa toda.

O Cauim tinha outra coisa que era mais importante do que o movimento cultural em si. Na campanha das Diretas, o Cauim foi a urna que mais teve votos em Ribeirão Preto. Nós fomos o único movimento cultural do país que fez algo como “Cauim discute a Constituinte”. Sentamos o Cachorro, o Gilberto e eu e nos perguntamos se ninguém ia explicar essa coisa toda pro povo. O que aconteceu foi que chamamos todos os partidos políticos; colocamos sete ou oito temas em debate e todo dia tinha debate. Muitos dos que são políticos famosos são amigos do Cauim até hoje. O Fernando Morais, por exemplo, esteve aqui tem vinte dias.

O que acontece com a memória social de Ribeirão Preto?

O que acontece hoje não diz respeito somente a Ribeirão. Eu nunca tive computador e nunca vou ter, porque não sei ligar nem na tomada. Mas se você digita meu nome lá, existe coisa que eu nunca fiz e, no entanto, as pessoas estão levando a sério. Se eu fizesse tudo o que está lá eu teria uns 150 anos... Levam a sério piadas das quais fui protagonista. Muitas aconteceram, de fato, e as pessoas confiam muito cegamente. Eu vejo diariamente que tudo é uma questão de educação. Mexendo em papéis antigos aqui, eu ainda não mudei meu discurso. Eu e o Fê pastamos muito no começo... A gente não tinha dinheiro nem pra comer, a gente ia pra São Paulo e batia na porta da Embrafilme pra que eles passassem filmes pra gente, e assim era sempre. A gente via seis, sete filmes por dia, depois ia aos Museus e tinha a mesma postura... O acesso a tudo era muito ruim. Ribeirão era uma cidade muito cara, o acesso à cultura aqui era muito caro... Não existia biblioteca, ou livraria.

Hoje, para falar do Cauim, você pode procurar o Odônio, que está conosco há 15 anos, cuidando da parte chata, burocrática; o Cachorro, o Joel (que é o mais antigo, mas ele não fala), que está comigo desde o começo e é o cara que eu conheço há mais tempo aqui na cidade... Se você procurar por ele hoje ele não vai falar porque está bêbado. É um cara que conhece outro lado da história, pois nunca foi um fanático cultural, sempre agiu como um parceiro. O Cachorro é também um cara legal, pois é um grande poeta e a história da poesia dele atravessa o Cauim. Está sem beber, e está meio chato, meio parado. Com a morte do Sócrates, ficou pior. Ele é tio da Débora Duboc, que também entrou para o Cauim muito nova, com 13, 14 anos...  Na festa dos 30 anos do Cauim eu estava muito bêbado e não lembro nem de ter participado de tudo aquilo. Depois ainda viemos para o Templo da Cidadania, numa festa que durou dois dias inteiros. Depois que eu bebo muito, eu começo a ficar são. Você perdeu uma grande oportunidade de poder conversar com a pessoa que mais sabia de Cauim, que era o Magrão, que morreu. No Cauim a gente briga pra caralho, mas eu sou ditador. Tudo é muito rápido, não dá tempo de levarmos a briga adiante. Meu partido é o Cauim. Eu não vejo, hoje, nenhum tipo de ideologia na política brasileira.

Você se considera um sujeito político?

Totalmente, eu sou político 24 horas por dia. Tudo é política. Mas não tenho mais saco de fazer essa política partidária rasteira que existe no Brasil. Eu não posso ver dois amigos meus saindo de pau por causa da Dilma ou da Marina, que, pra falar a verdade, fazem parte de dois partidos com o contexto completamente viciado. Eu aprendi muito isso com o Betinho... Ele falava com o lixeiro, com o traficante... E comigo, não foi diferente. Eu quero o contato com o povo, com as crianças, através do meu trabalho. A sociedade está cheia de buracos e nós, enquanto seres políticos diferenciados, entramos no meio.

Como é a relação de vocês enquanto ONG com a prefeitura e secretarias de Ribeirão? Sempre houve respaldo?

É ótima nossa relação, e os projetos a gente sempre corre atrás. Antigamente a gente nem era recebido pelas pessoas. Em 33 anos de Cauim, 15 deles são de diálogo com a prefeitura. Mas, antigamente, a gente nem era recebido. A gente era doido... No governo do João Gilberto nós ganhamos uma concorrência para gravar a Semana do Prefeito. Na época eu nem ia filmar porque tinha acabado de brigar com o prefeito, e hoje nós somos amigos. Porque é muito fácil... O Cauim consegue manter uma sala (a maior sala de cinema do mundo), passando filmes de graça, pra todas as crianças e adolescentes de todas as escolas se sentirem bem. Se a prefeitura não entende isso, então, meu Deus!... Lógico que existem visões tacanhas, eu mesmo já briguei com muitos secretários que falavam que nossos projetos não levavam a nada. Mas, mesmo com as relações conturbadas que tive com alguns, as nossas idéias sempre vingaram.

O Fernando Kaxassa é um sujeito de muitos amigos e poucos inimigos?

Não sei. Se até o Chico Buarque descobriu pelo site dele que ele tem uma porção de gente que não gosta dele, imagine eu, então! E olha que é Chico Buarque, um cara legal pra caralho, que a gente conheceu porque ele era muito ligado ao Magrão. Eu o convidei para fazer a música-tema do filme do Sócrates... Eu tenho amigos pra caramba... E os inimigos, eu sei que existem. Mas eu sempre procurei trabalhar a amizade. Ninguém faz o movimento que eu faço cercado de amigos; ninguém ganha nada trabalhando comigo e olha que eu cobro muito. As pessoas que estão envolvidas com o Cauim já investiram muito dinheiro nele. O Mário Paiva, que é um cara muito importante para toda historia do Cauim, é um grande fotógrafo e foi ele quem me retirou do ostracismo e ficava me enchendo o saco 24 horas por dia para que eu retornasse. O Cauim existe hoje por causa dele, porque ele foi me buscar, quando eu estava muito xarope da cabeça.

Isso é uma coisa maluca. Estava conversando com um juiz de Direito lá fora, agora a pouco, e eu me lembro dele chegando ao Cauim moleque, com um livro debaixo do braço. Ele me mostrou o escrito e eu me apaixonei pelo que ele escreveu e nós resolvemos lançar pelo Cauim. Ele vendeu mais de mil exemplares do livro dele, numa época em que as pessoas participavam desses movimentos culturais. Era tudo muito legal. O Gilberto Abreu, mesmo... Sempre que ele tem coisa nova eu pergunto pra ele se não quer publicar. Ele chegou a vender três mil livros de uma vez, porque na época ele dava aula na Barão e no COC. Ficou com a mão arrebentada de tanto autografar. Eu tenho um selo que é o Monções, por uma questão de resolver problemas administrativos e burocráticos. Dentro do estatuto do Cauim, a ONG pode produzir livros e outros materiais culturais, sem qualquer fim lucrativo.

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