Leiam na íntegra a entrevista concedida por Fernando José da Silva, o Kaxassa (criador e mantenedor do Cineclube Cauim de Ribeirão Preto) para o meu livro recém-lançado, intitulado "Viver Cinema: o Cineclube Cauim e seus trinta anos de História", resultado da minha pesquisa de conclusão de curso para a licenciatura em História pelo Centro Universitário Barão de Mauá. O lançamento aconteceu na 12° edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no dia 29 de maio.
Dirigiu e encenou peças
teatrais com grupos amadores de Barretos e Ribeirão Preto entre ’74 e ’78;
Sócio-fundador e 1° Secretário do Clube de Cinema de Ribeirão Preto em 1979 e
1° semestre de 80; Aluno do curso de Ciências Sociais da UNESP de Araraquara
desde 79; 2° Secretário do Cine-Foto Clube de Ribeirão Preto em 79 e 80;
programador e conselheiro do Zoom Cine Clube de Araraquara em 79; Atualmente
colabora com vários cineclubes do estado de São Paulo. Fotógrafo. Barretense.
O que você pensa quando
olha para o passado?
Penso
que eu perdi muito tempo da minha vida, que eu poderia ter bebido mais (risos).
Brincadeira, eu penso que isso é muito legal... Era uma loucura, a gente não
tinha nenhuma pretensão e isso deu certo.
Quando transformou isso num
meio de vida?
Até
hoje eu não transformei. Até hoje, se eu não batalhar outras coisas, eu não
consigo viver. Do Cauim não se vive. Eu tenho que fazer programa de TV... Por
exemplo, agora (na hora da entrevista) eu vou gravar quatro programas. Já fiz
coisa à beça, como produtor... Do Cauim mesmo, só pauleira. Agora preciso
colocar o programa pra gravar porque senão, já viu...
Comente sobre sua infância
e adolescência quanto à cultura.
Eu
nasci em Barretos, na época, uma cidade bem pequenininha. Já tinha essa
tradição de folclore, muito mais do que hoje, quando dizemos “terra do peão”,
quando a cidade se transformou em algo pra turistas. Minha infância todinha foi
marcada por essas festas tradicionais, de congadas, folias de reis, etc. Eu
passava as férias em Jaborandi, com meus avos. Era uma coisa engraçada, porque
era uma família de negros que “adotou” um loiro de olho azul, meu pai. Uma
coisa interessante nisso tudo é que até Jaborandi tinha cinema. Barretos tinha
três cinemas: o Cine Barretos, o Tetéia e o Centenário e meu padrinho era dono
desses dois, portanto eu não pagava entrada. Meu vizinho também não pagava e a
gente ia ao cinema todo dia, o tempo todo.
O forte mesmo era matinê. Nos sábados e domingos tinha matinal às dez da
manhã e matinê às duas em um dos cinemas; quatro e meia da tarde em outro. Eram
três sessões por dia. Eu brinco muito com o Marco Lucchetti, porque acho que
sou o brasileiro que mais viu western. Barretos também sempre teve uma tradição
muito forte de teatro. De Barretos veio Jorge Andrade (que depois escreveu
novelas para a Globo); o Luiz Carlos Arutim (que participou do meu primeiro
filme e tinha acabado de ganhar o prêmio Molière); Américo Rosário de Souza. Eu
era uma criança que morava em frente ao José Expedito Marques, que morreu não
faz muitos anos, que era o maior incentivador de teatro de Barretos. Era
professor, trabalhava e escrevia teatro, vivia teatro 24 horas por dia. Eu era
bem mais novo; me lembro de ver os ensaios do Expedito que eram no colégio que
funcionava em frente à farmácia do meu pai, eu vi muito ensaio; e com sete,
oito anos, começaram a me chamar para encenar peças. Eu brinco e falo que o
primeiro papel que eu fiz foi o menino Jesus, portanto, comecei mal. Fui me
apaixonando por essas coisas aos poucos.
Em
Barretos não existia muito essa coisa de televisão, lá nem pegava Globo. Isso
em 1973, 1974... A Globo só funcionava em um bar chamado Caju, as outras TVs só
tinham a Rede Tupi. E durante semana, a programação da Tupi só começava depois
das quatro horas da tarde; nós íamos pra escola e à tarde a gente trabalhava.
Meu pai morreu muito cedo, então a gente começou a trabalhar cedo. Depois
começamos a criar o hábito de ver novelas, mas isso foi bem depois. Mas, a Rede
Tupi tinha uma sessão de sábado que se chamava Sessão Comédia Brasileira. Foi
lá que vi pela primeira vez o filme O Grande Momento, do Roberto Santos, e esse
filme pirou minha vida. Vi A Hora e a vez de Augusto Matraga também, mas o
filme do Roberto Santos foi o que mudou a minha vida por inteiro. Eu tinha 9, 10 anos. Eu sempre odiei futebol,
nunca fiz um gol. O Sócrates brincava comigo, ele até escreveu na revista Carta
Capital um artigo a meu respeito dizendo que eu era o centro-avante que nunca
fez um gol na vida. A minha vida eram as artes. Quando o meu pai morreu a gente
vendeu a farmácia que tínhamos e eu estava com 13, 14 anos, na época. Eu já
tinha encasquetado que queria seguir esse caminho das artes.
Na
escola eu descobri depois de muitos anos que eu tinha dislexia e só gostava de
estudar História. Eu queria juntar essas duas paixões de algum jeito, queria
era trabalhar com isso. Eu já tinha uma irmã que morava em Ribeirão Preto e vir
pra cá foi fácil. Quando cheguei aqui, dei de cara com nomes como o Vacarinni.
A força de Ribeirão eram as artes plásticas. E a boemia. A boemia me abriu
espaço pra muitas coisas porque eu conheci muita gente nas ruas. E logo comecei
a fazer parte dos grupos marginais de teatro. Eu sempre fui muito tímido e
antes de entrar nos palcos eu tomava uma cachacinha. Na minha adolescência, já
adotei o nome, porque o pessoal me conhecia como “o Fernando da cachaça”. Eu
sempre fui muito novo e muito velho. Era uma coisa esquisita, aconteceu isso
com o Sócrates também, o tempo melhorou muito a gente. Eu era um cara que com
16, 17 anos você olhava pra mim e pensava que eu tinha 100 anos. Eu era muito
magro, bebia muito... O tempo deu uma melhorada em mim. Sempre fui o mais novo
dos grupos que formei. E com 16, 17 anos, eu já estava fundando o que viria a
ser o Cauim. A minha adolescência foi formar o Cauim. Não me lembro de ter
outro tipo de adolescência. O grupo já existia, mas o nome veio depois; da
palavra Cauim, que aprendi com sete, oito anos e que achava a coisa mais linda
do mundo. Ribeirão Preto foi fundamental pra minha formação enquanto pessoa
porque aqui existia um grupo com uma causa em comum. Era uma ditadura militar e
queríamos uma abertura.
Eu
fiz supletivo, sempre estudei muito mal, por ser disléxico. Mesmo assim, fui
fazer faculdade de Ciências Sociais com 17 anos. Fui pra Araraquara e fui
direto para o Zoom Cineclube, por intermédio de um cara que tinha conhecido
aqui em Ribeirão, o Paulo Pereira, ex-preso político por quatro anos e
professor de Geografia, que já havia feito cursos de teatro comigo. Um dia ele
me ligou e me perguntou o que eu faria em Araraquara e falou pra eu chegar lá e
ir direto tomar conta do enorme cineclube que existia. Juntamos nossas forças:
Zoom com Cauim.
Todos os que fizeram parte
do Cauim no começo você já conhecia de antes?
Mais
ou menos. O Fê, por exemplo, eu conheci porque namorávamos a mesma menina. Ele
largou dela e foi pra Brasília, e ela ficou uns seis, sete meses sozinha. Foi
quando começamos a namorar e ele tinha sido assistente de fotografia do
Amêndola... Quando finalmente nos conhecemos eu pensei que fosse apanhar,
quando na verdade, foi um complemento. Ele era fotógrafo e precisava de gente
que soubesse unir grupos distintos, eu era disléxico... No meu primeiro ano de
faculdade eu conheci o Marcos Valério Diamantino, e esse cara mudou minha vida.
A gente tinha a mesma idade, tínhamos morado na mesma cidade e ainda não nos
conhecíamos. Ele largou mão das Ciências Sociais lá em Araraquara e veio fazer
Jornalismo na UNAERP – foi considerado o melhor texto publicitário de Ribeirão.
Ganhava todo tipo de prêmio; escrevia muito bem, escreve muito bem. Voltou pra
Barretos e hoje trabalha na TV Soares de lá. Ele era o que faltava para nossa
dupla: o Fê e eu, doidos; e o Marcos a cabeça que pensava por nós dois, pois
ele não bebia... Enquanto eu tocava o bar do D.A. ele voltava pra casa e
escrevia. A gente trocava idéias de madrugada, pois morávamos na mesma casa. O
Fê sempre desenhava o que a gente ia fazer, fazia storyboards... Daí vem a
origem do grupo, de nós três. Mas, no mesmo andamento, foi entrando muita
gente, pelas atividades de teatro; muita coisa de cinema. O grupo cresceu, a
gente queria mudar o país. No começo, nosso objetivo era muito claro. A gente
tinha como questão de honra derrubar a ditadura militar. A gente só juntou
aquele grupo todo porque nós pensávamos que poderia haver revolução pela
cultura. O objetivo nosso era fazer cinema em primeira etapa, mas ao mesmo
tempo, tinha esse negócio da ditadura. O Cineclube era o que mantinha a gente
em contato com o povo. Muitos amigos meus queriam ser cineastas; eu sempre
gostei muito de fazer cinema, dirigi não sei quantas mil propagandas; mas eu
gosto muito de cineclube, do movimento cultural. Quando o povo começou a ir pra
São Paulo, o Roberto Santos chegou pra mim e disse “Se você for embora ficará
um rombo de cineclube no interior. Não queria que fosse você a ir para o
sacrifício, porque você tem o dom natural do cineclube”. Daí, eu fiquei. Foi
quando aluguei a sala da Rua Lafaiete, 374.
E o Lucchetti?
Eu
não conhecia o Lucchetti porque ele morava no Rio. Foi o maior barato, porque
ele veio pra Ribeirão e eu ainda não o conhecia. Muitas pessoas falavam que nós
precisávamos conhecê-lo e nós fomos para o Rio atrás dele. Quando a gente
chegou lá demos de cara com o Alex Viany, pai do Cinema Novo; o Wilson Grey e
eles disseram que ele morava em Ribeirão. “Ele era muito tímido, ficou cinco
anos escrevendo pra mim morando no Rio, mas a gente nunca se encontrava”. Daí
eu fiquei louco. Voltei, bati lá na casa dele e no segundo dia que a gente se
conhecia ele entrou e ficou. Ele e o filho dele, o Marquinho, que tá aqui até
hoje. No caso deles, foi o contrário. O cineclube já existia e eles nunca
saíram dele. O Cauim nunca parou: foi crescendo, veio o Collor; fechamos a
sala, daí veio outra... O movimento é contínuo.
Você não consegue
sobreviver só do Cauim...
Sobreviver
só com o Cauim é impossível, o Cauim é uma ONG. O Cauim tem custo. Ele, hoje,
custa 160 mil reais. Se você não tiver patrocinador, você não tira isso. As
pessoas que trabalham com o Cauim trabalham em outras coisas. O Odônio é
empresário, o Sócrates vivia de palestras, eu faço programa de televisão...
Dentro do Cauim são só os funcionários. O Cauim é uma coisa pra você dedicar a
vida a ele, não ele a você (risos). O maior barato é a série de outras coisas
que o Cauim faz; as outras parcerias. Pra nos mantermos mesmo, só trabalhando
em outras áreas, ralando... Ralando não, porque fazer televisão, pra mim, é uma
delícia. Antigamente, não existia esse negócio de lei. Quando começamos não
existia nada. Antigamente, era diferente. Você alugava uma sala de cinema de
300 lugares para passar filmes que eles chamavam “de arte”. Graças, a Deus não,
porque sou ateu (risos), mas hoje você vai à locadora e encontra tudo. O
cineclube tinha essa função de apresentar esses filmes de arte. Nessa época,
tinha um público que pagava e que mantinha o espaço funcionando. A coisa toda
era sustentada somente pela bilheteria. Hoje é impossível você fazer isso. No
lugar onde hoje funciona um cinema de 800 lugares poderia funcionar uma igreja,
um supermercado, um banco; coisas que dão mais lucro. Na verdade, o custo deste
projeto cultural cresceu muito.
Hoje vocês têm coisas que
não são relacionadas diretamente ao cinema...
Na
verdade, eu acho que isso poderia passar pela cabeça das pessoas, inclusive do
Gilberto, que era membro do grupo, por eu ser um apaixonado por cinema e ser
mais ou menos o líder do grupo. Mas as pessoas envolvidas com o Cauim sempre
gostaram de outras coisas que não o cinema, como o teatro e a música. O cinema
é o que mais marca. Por mais que o Cauim faça e participe de outros projetos, o
cinema é que fica marcado, porque lá vão mais de mil pessoas; e hoje nós
precisamos salvar o cinema para a população carente. Olha a loucura que nós
inventamos... A maior mentira que existe no Brasil é aquela de que, os
americanos, que distribuem os filmes no país, pra justificarem o aumento do
ingresso de setenta centavos para três dólares, precisaram tirar os cinemas dos
centros das cidades e ir pra shoppings. O povão não abandonou o cinema; o
cinema que abandonou o povão. Nós conversamos isso com o Gilberto Gil, na época
em que ele era ministro da Cultura, via Leopoldo Nunes, de que precisávamos
resgatar o cineclube. “Precisamos abrir o cinema pra todo mundo; resgatar o
público de cinema. Depois que ele estiver dentro, aí começar cursos de
produção”. Tem um punhado de gente no Cauim produzindo, tem que ter talento. Na
verdade, o meu principio nunca foi o de produzir. Pode ter sido no começo, mas
hoje, a minha paixão é arte e educação. Quando começamos a ver que a escola
poderia freqüentar o cinema e lá dentro passar filmes, eu caí de cabeça. Sempre
gostei do movimento cultural. Quando produzo um programa isso é o que importa
pra mim, naquele momento. O que eu gosto do Cauim é o alcance social que ele
tem. Por que existe o curso de culinária dentro do Cauim? Não é porque gostamos
de comer, ao contrário. É porque estávamos um dia com um grupo de pais de
alunos que participam do Templo da Cidadania e eles precisavam comer, aliás,
eles participavam das atividades por causa do lanche que era servido. É por
isso que conseguimos atrair mais de mil pessoas por dia, às vezes, quatro mil
pessoas, dentro de um espaço fechado.
Eu
vou te falar a verdade: da minha cabeça, o cineclube era uma coisa passageira,
de cinco anos, mais ou menos. Mesmo porque, nunca pensei que fosse viver mais
do que 25 anos. Eu achava que ia morrer logo; eu tinha uma saúde precária,
bebia como um louco, fumava quatro maços de cigarro por dia. Na minha cabeça,
eu não tinha essa visão de futuro, as coisas eram pra enquanto desse tempo de
fazê-las. Se eu não ia fazer 30 anos, por que o Cauim faria? Nada mudou, eu
cheguei aos 51 anos de idade. Tive Hepatite B, parei um ano de beber, voltei a
beber... Eu fui levando a vida e o Cauim faz parte disso tudo. Fecho hoje; abro
amanhã. Acaba o dinheiro, vamos correndo atrás... Eu não paro pra pensar o que
o Cauim vai ser hoje ou amanhã. Tudo é maravilhoso e a gente faz parte de tudo
isso. Aonde isso nos levará eu não sei. Eu tenho grandes idéias que já foram
discutidas com o Gilberto, por exemplo, como uma Universidade Livre de
Cidadania; a construção de um “cinema do lixo” – desde produção até chegar à
cadeira do cinema, toda de material do lixo.
Eu
não sei bater máquina; não sei usar computador. Eu escrevo a lápis. A minha
cabeça não para, são 24 horas pensando em projetos. Vários amigos meus dizem
“Kaxassa, você é o único cara chato no mundo que não para de pensar em
projeto”. Fazemos coisas loucas, como passar três dias inteiros bebendo e no
final desses três dias, estou pensando... Sou o vagabundo que mais trabalha no
mundo. Eu vivo por e para o Cauim.
O processo de conhecer as
pessoas foi algo que aconteceu naturalmente?
Se
você não for atrás das pessoas, não vira nada. Hoje em dia tocar o Cauim é
fácil, todos conhecem as pessoas que estão envolvidas com ele. No começo,
quando éramos o Fê e eu, é que era difícil. Você tinha que bater na casa das
pessoas com a cara de pau de costume. Usávamos barbas de hippie, roupas de
hippie, fumávamos o mesmo cigarro porque não tínhamos dinheiro. Mas o que não
tínhamos em dinheiro a gente tinha de consciência: Ou a gente fala com esse
pessoal ou não tem Cauim. Eu tomava três, quatro copos de cachaça e ia; nem me
tocava que estava com aquele bafão. Era tudo na cara-dura, uma cara de pau
tremenda porque era tudo vontade de conhecer as pessoas. Eu queria conhecer o
Roberto Santos, então, bati na porta dele e falei que queria conhecê-lo. Era
tudo assim.
E o cineclube sempre
existiu no mesmo lugar?
O
cineclube não tinha lugar fixo no começo. Passávamos os filmes nas escolas, na
Barão de Mauá, no COC, na praça; era tudo em 16 mm . Depois tivemos o
Cineclube Ribeirão Preto, que alugavam uma vez por semana em cada cinema. Cine
São Paulo, etc. Depois alugamos a Rua Lafaiete, 1084, onde hoje funciona o
Ribeirão em Cena. Ficamos lá até 1981. Depois nos mudamos pra uns números pra
baixo, 374, onde hoje funciona uma igreja. Ficamos até o Collor, quando fomos
montar para o Estado as Oficinas Culturais. O Fernando Morais, na época
secretário estadual da Cultura, chamou a gente pra fazer essas Oficinas.
Montamos no Espaço Candido Portinari, que existe até hoje. Depois voltamos com
o Banco Ribeirão, a Agência Ribeirão, que funcionou até agora. Aqui, no Templo
da Cidadania, estamos há 10 anos. Era uma casa de família, que alugamos para
ser a sede de tudo. O Cauim é só a sala de cinema. Estou lá bem menos do que eu
gostaria de estar; porque fico mais em bancos, secretarias e prefeitura pra
pedir dinheiro. Vou à Prefeitura fazer projetos, etc.
Em 33 anos, você se
arrepende de alguma coisa?
Puta
que pariu, cara. Não tenho do que me arrepender. Minha vida é pra arriscar. Eu
nunca tive planos, eu nunca pensei “nós vamos fundar o Cauim para daqui um ano
comprar uma sala”; meu plano é o dia-a-dia. O passado eu acho chato; não tenho
saudades, não sou saudosista. Eu tenho saudade, sim, dos amigos que eu perdi.
Do Canarinho, do Sócrates. Eu não consigo entender que um morreu há quatro
anos, o outro há dois meses, isso eu não me conformo. Isso me magoa
profundamente, eu acho a maior injustiça do mundo. Agora, do passado, eu não
tenho saudades. Pra quem vive a minha vida, não dá pra ter planos futuros. Se
eu fosse engenheiro, por exemplo, seria a mesma coisa. Eu tenho um filho só;
estou com a mãe dele tem 30 anos. Eu nunca pretendi ter filhos, por causa da
vida louca que eu levava. Eu fui o cara que mais queimei coisas: meu pai me
deixou uma casa, ganhei dinheiro com propaganda e eu não tenho nada. Não tenho
carro, não tenho casa, e me sinto o cara mais feliz do mundo por não ter nada.
Eu tenho uma vida que vou vivendo. Eu gosto de sonhar com as coisas que estão
na minha frente, que estão acontecendo e eu vou caminhando com elas. Minha
família hoje é muito diferente de mim, não consigo me enxergar no meu filho,
levamos vidas opostas, porque ele nunca teve essa ligação com cinema. Ele vai
fazer Biologia; a mãe dele fez UNICAMP... Nós lemos bastante juntos.
E Ribeirão Preto, em termos
culturais? Hoje é diferente do que no passado?
Naquela
época tinha uma coisa muito interessante. Há trinta anos, Ribeirão Preto
consumia cultura com uma voracidade muito grande, porque não tinha opção. Era a
ditadura militar, muita gente em Ribeirão foi presa, a cidade foi considerada
“a Moscou brasileira”. Eu cheguei a ser preso por passar o filme Je Vous Salut
Marie... Cheguei a ser preso por tráfico de uma coisa que eu detesto que é
maconha. Eu posso beber o que for, que não tem problema. Basta um cigarro de
maconha ser aceso perto de mim e eu passo mal, vomito... Me envolvi com outras
drogas também, claro, afinal, eu fui júri de cinema em festivais nos anos 80,
poxa. Mexia com tudo, mas nunca fui um viciado. Mesmo pra beber, tem que haver
um ritual. Eu não sei beber pouco; tem que ser uns três, quatro dias bebendo.
Eu gosto de bar. Ribeirão tinha esse público, atraía os estudantes. A gente
falava que quando a abertura viesse a coisa ia ficar mais forte, quando, na verdade,
não ficou. Cada um foi pra um lado e eu não culpo ninguém não, Ribeirão é uma
cidade como qualquer outra: tem muita coisa legal e tem muita coisa chata. A
USP, por exemplo, tinha que ser dentro da cidade. O cineclube, quando era na
Mauá, era muito forte... Tinha a Suzete, o Lafaiete... O cineclube da Mauá nos
dava dinheiro pra que pudéssemos chamar os palestrantes... Exibíamos os filmes
no Ginásio Jumbão, de 400 lugares e sempre lotava. Vários e vários cineastas
vieram por conta dos Diretórios Acadêmicos. E isso, hoje, acabou. Isso me deixa
puto, me entristece mesmo. Apesar de eu nunca ter sido muito membro dos
Movimentos Estudantis porque eu comecei muito cedo no Cauim; eu sempre gostei e
admirei essas movimentações. Eu era sempre chamado pelas chapas a participar.
Independente de quem ganhasse, eu cuidava do aspecto cultural da coisa toda.
O
Cauim tinha outra coisa que era mais importante do que o movimento cultural em
si. Na campanha das Diretas, o Cauim foi a urna que mais teve votos em Ribeirão
Preto. Nós fomos o único movimento cultural do país que fez algo como “Cauim
discute a Constituinte”. Sentamos o Cachorro, o Gilberto e eu e nos perguntamos
se ninguém ia explicar essa coisa toda pro povo. O que aconteceu foi que
chamamos todos os partidos políticos; colocamos sete ou oito temas em debate e
todo dia tinha debate. Muitos dos que são políticos famosos são amigos do Cauim
até hoje. O Fernando Morais, por exemplo, esteve aqui tem vinte dias.
O que acontece com a
memória social de Ribeirão Preto?
O
que acontece hoje não diz respeito somente a Ribeirão. Eu nunca tive computador
e nunca vou ter, porque não sei ligar nem na tomada. Mas se você digita meu
nome lá, existe coisa que eu nunca fiz e, no entanto, as pessoas estão levando
a sério. Se eu fizesse tudo o que está lá eu teria uns 150 anos... Levam a
sério piadas das quais fui protagonista. Muitas aconteceram, de fato, e as
pessoas confiam muito cegamente. Eu vejo diariamente que tudo é uma questão de
educação. Mexendo em papéis antigos aqui, eu ainda não mudei meu discurso. Eu e
o Fê pastamos muito no começo... A gente não tinha dinheiro nem pra comer, a
gente ia pra São Paulo e batia na porta da Embrafilme pra que eles passassem
filmes pra gente, e assim era sempre. A gente via seis, sete filmes por dia,
depois ia aos Museus e tinha a mesma postura... O acesso a tudo era muito ruim.
Ribeirão era uma cidade muito cara, o acesso à cultura aqui era muito caro... Não
existia biblioteca, ou livraria.
Hoje,
para falar do Cauim, você pode procurar o Odônio, que está conosco há 15 anos,
cuidando da parte chata, burocrática; o Cachorro, o Joel (que é o mais antigo,
mas ele não fala), que está comigo desde o começo e é o cara que eu conheço há
mais tempo aqui na cidade... Se você procurar por ele hoje ele não vai falar
porque está bêbado. É um cara que conhece outro lado da história, pois nunca
foi um fanático cultural, sempre agiu como um parceiro. O Cachorro é também um
cara legal, pois é um grande poeta e a história da poesia dele atravessa o
Cauim. Está sem beber, e está meio chato, meio parado. Com a morte do Sócrates,
ficou pior. Ele é tio da Débora Duboc, que também entrou para o Cauim muito
nova, com 13, 14 anos... Na festa dos 30
anos do Cauim eu estava muito bêbado e não lembro nem de ter participado de
tudo aquilo. Depois ainda viemos para o Templo da Cidadania, numa festa que
durou dois dias inteiros. Depois que eu bebo muito, eu começo a ficar são. Você
perdeu uma grande oportunidade de poder conversar com a pessoa que mais sabia
de Cauim, que era o Magrão, que morreu. No Cauim a gente briga pra caralho, mas
eu sou ditador. Tudo é muito rápido, não dá tempo de levarmos a briga adiante.
Meu partido é o Cauim. Eu não vejo, hoje, nenhum tipo de ideologia na política
brasileira.
Você se considera um sujeito
político?
Totalmente,
eu sou político 24 horas por dia. Tudo é política. Mas não tenho mais saco de
fazer essa política partidária rasteira que existe no Brasil. Eu não posso ver
dois amigos meus saindo de pau por causa da Dilma ou da Marina, que, pra falar
a verdade, fazem parte de dois partidos com o contexto completamente viciado.
Eu aprendi muito isso com o Betinho... Ele falava com o lixeiro, com o
traficante... E comigo, não foi diferente. Eu quero o contato com o povo, com
as crianças, através do meu trabalho. A sociedade está cheia de buracos e nós,
enquanto seres políticos diferenciados, entramos no meio.
Como é a relação de vocês
enquanto ONG com a prefeitura e secretarias de Ribeirão? Sempre houve respaldo?
É
ótima nossa relação, e os projetos a gente sempre corre atrás. Antigamente a
gente nem era recebido pelas pessoas. Em 33 anos de Cauim, 15 deles são de
diálogo com a prefeitura. Mas, antigamente, a gente nem era recebido. A gente
era doido... No governo do João Gilberto nós ganhamos uma concorrência para
gravar a Semana do Prefeito. Na época eu nem ia filmar porque tinha acabado de
brigar com o prefeito, e hoje nós somos amigos. Porque é muito fácil... O Cauim
consegue manter uma sala (a maior sala de cinema do mundo), passando filmes de
graça, pra todas as crianças e adolescentes de todas as escolas se sentirem
bem. Se a prefeitura não entende isso, então, meu Deus!... Lógico que existem
visões tacanhas, eu mesmo já briguei com muitos secretários que falavam que
nossos projetos não levavam a nada. Mas, mesmo com as relações conturbadas que
tive com alguns, as nossas idéias sempre vingaram.
O Fernando Kaxassa é um
sujeito de muitos amigos e poucos inimigos?
Não
sei. Se até o Chico Buarque descobriu pelo site dele que ele tem uma porção de gente
que não gosta dele, imagine eu, então! E olha que é Chico Buarque, um cara
legal pra caralho, que a gente conheceu porque ele era muito ligado ao Magrão.
Eu o convidei para fazer a música-tema do filme do Sócrates... Eu tenho amigos
pra caramba... E os inimigos, eu sei que existem. Mas eu sempre procurei
trabalhar a amizade. Ninguém faz o movimento que eu faço cercado de amigos;
ninguém ganha nada trabalhando comigo e olha que eu cobro muito. As pessoas que
estão envolvidas com o Cauim já investiram muito dinheiro nele. O Mário Paiva,
que é um cara muito importante para toda historia do Cauim, é um grande
fotógrafo e foi ele quem me retirou do ostracismo e ficava me enchendo o saco
24 horas por dia para que eu retornasse. O Cauim existe hoje por causa dele,
porque ele foi me buscar, quando eu estava muito xarope da cabeça.
Isso
é uma coisa maluca. Estava conversando com um juiz de Direito lá fora, agora a
pouco, e eu me lembro dele chegando ao Cauim moleque, com um livro debaixo do
braço. Ele me mostrou o escrito e eu me apaixonei pelo que ele escreveu e nós
resolvemos lançar pelo Cauim. Ele vendeu mais de mil exemplares do livro dele,
numa época em que as pessoas participavam desses movimentos culturais. Era tudo
muito legal. O Gilberto Abreu, mesmo... Sempre que ele tem coisa nova eu
pergunto pra ele se não quer publicar. Ele chegou a vender três mil livros de
uma vez, porque na época ele dava aula na Barão e no COC. Ficou com a mão
arrebentada de tanto autografar. Eu tenho um selo que é o Monções, por uma
questão de resolver problemas administrativos e burocráticos. Dentro do
estatuto do Cauim, a ONG pode produzir livros e outros materiais culturais, sem
qualquer fim lucrativo.


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