Esta é a entrevista que faz parte do Jornal Claquete, projeto experimental que meu grupo apresentou na conclusão do curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá, em 2005. Na ocasião, minha amiga, Amanda Ferreira, esteve em São Paulo, ao lado do diretor para lhe fazer algumas perguntinhas. Este texto discorre suas impressões.
Amanda Ferreira
Enviada especial a São Paulo
Foi no mínimo, estranho. De repente eu ali no centro de São Paulo procurando o nome de uma rua que ninguém conhecia. Faltando dois minutos para o horário marcado, achei o tal endereço da agência de modelos. Mas, espera aí, eu iria entrevistas o Mojica – Zé do Caixão, como assim, agência de modelos?
Se alguém se assustou e acha que tem alguma coisa errada, não tem não, é isso mesmo. O mestre do terror brasileiro tem agora uma agência de modelos cuja chamada é mais ou menos assim. “Se você não foi aceito na Elite, na Ford ou na Mega, venha fazer parte da nossa agência, pois aqui, você será aceito”.
Cheguei ao prédio velho do bairro de Santa Cecília. Entrei e fiquei à espera, pois Mojica não havia chegado ainda. A equipe de filmagem já estava lá. Até então, eu não estava nervosa, talvez um pouco ansiosa, afinal de contas, eu ia entrevistar o Zé do Caixão, e ainda estava no meio do processo de separar o criador da criatura.
Logo ele chegou e passou por mim sem ao menos olhar. Sua secretária disse: “Ele não deve ter te visto”. Afinal havia outras pessoas por lá e ele nem me conhecia.
Alguém disse alguma coisa e ele virou-se para mim. Levantei-me e fui cumprimentá-lo. Estiquei a mão, ele me puxou e me deu um abraço. Então, olhei e vi aquelas unhas tanto me aterrorizavam na infância. Elas ainda estavam ali (claro que não as mesmas) bem grandes e pude vê-las bem de perto.
Todos se arrumaram dentro da sala onde aconteceria a entrevista. Ele quis ver o roteiro de perguntas e também pediu para eu ficar atenta às respostas, pois em uma única resposta ele poderia responder todas as minhas perguntas. Nesse momento comecei a ficar um pouco nervosa. Nesse meio tempo ele já havia fumado uns quatro cigarros.
Fiquei bem atenta para não perguntar algo que ele já havia respondido. Não pensem que foi uma tarefa fácil, pois a cada pergunta que fazia, ele respondia sobre várias coisas e muito pouco do que eu perguntava.
Quando as perguntas eram sobre o Lucchetti, ele responde de uma maneira um tanto quando confusa e pouco esclarecedora. Não que ele tenha falado mal do Lucchetti, pelo contrário, falou muito bem, porém pouco, mas sempre muito simpático.
A entrevista durou mais ou menos 50 minutos, quando disse que havia acabado todas as minhas perguntas ele perguntou se podia deixar uma mensagem e, é claro, eu disse que sim. Então ele pediu que fechassem a câmera nele e começou a dar o seu conselho “Você, você ou todos vocês. Muitas vezes você precisa de um conselho. Mas pense bem antes de ouvir este conselho. Não peça conselho para outro. Porque na maioria das vezes o outro quer ser você! Quando precisar de um conselho, peque um espelho e contemple sua imagem. Ninguém mais do que você gosta de você. Peça um conselho para a sua própria imagem. O seu subconsciente lhe dirá o caminho a seguir. Vá em frente, caia levante, porque cair faz parte. Vá em frente que você chega lá como eu cheguei.”
Mojica ou Zé do Caixão? Nessa altura, já estava mais confusa para separá-los, dirigiu toda a entrevista, posicionamento de câmera e tudo mais. Realmente ele é um diretor nato, todos com quem falamos durante as nossas pesquisas estavam certos, ele realmente é um gênio com uma câmera.
A entrevista acabou e o homem das unhas grandes me pediu para tirar algumas fotos de toda a equipe para que ele guardasse.
Também fez uma crítica à cidade de Ribeirão Preto. Ele disse que era a única cidade do mundo onde havia feito trabalhos e que ninguém mandava nada para ele depois. Aliás, essa também é uma crítica do próprio Lucchetti.
Quando eu estava saindo para ir embora, Mojica (ou será o Zé do Caixão) disse: “Agora, para pagar a entrevista, me pague uma menta no bar aqui ao lado”.
Claquete: Como o senhor conheceu o Lucchetti?
Jose Mojica Marins: Por volta do ano de 1965. Não me lembro o nome. Acho que era Sérgio, um fã meu que me falou dele. Disse que tinha uma pessoa muito legal que ra de Ribeirão Preto e estava mudando para São Paulo, que viu meu trabalho e queria ter um papo comigo. Marcamos em uma casa de chá na avenida São João. Começamos a conversar e ele me disse que foi assistir ao filme “À meia-noite levarei sua alma” como uma gozação, não acreditava que alguém no Brasil poderia partir para um gênero místico de terror. Contou que ao assistir ao filme, ele ficou meio intrigado, mas que, ao dormir, o filme começou a pegar força. Ele me falou algumas coisas que tinha feito. Mexeu com aquilo que eu mais gostava, HQs. Eu era colecionador de HQs, porém, tive que vender para acabar de fazer cinema. Ele, até hoje, tem uma coleção fantástica. Eu estou tentando me recuperar.
Claquete: Como e qual foi a primeira parceria com Lucchetti?
José Mojica Marins: Era uma época que se começava a fazer a fazer muito cinema em três histórias. Eu resolvi fazer “O estranho mundo de Zé do Caixão” em três histórias, e pedi para ele escrever, um dia para cada história”. E não deu outra, o Lucchetti trouxe tudo pronto em dois dias. Então eu vi que ele realmente captava as minhas idéias.
Claquete: Qual foi a influência do Lucchetti na sua vida?
José Mojica Marins: Eu não diria que o Lucchetti mudou nada na minha maneira de ser. Não houve uma grande mudança. Diria que ele me trouxe muito animo, porque ele realmente acreditava no meu trabalho.
Claquete: Quantos trabalhos vocês fizeram juntos?
José Mojica Marins: Eu não queria outro além do Lucchetti. Acho que chegamos a fazer umas treze fitas. Depois, entramos em histórias de fotonovela, HQ, televisão. Acho que o Lucchetti fez uns 150 roteiros ou mais para a televisão, porém nem todos foram aproveitados. Ele foi o homem que mais trabalhou comigo, ficou vários anos como se fosse funcionário. Mas eu não o tinha como funcionário, eu o tinha como amigo. Chegou uma época que a perseguição foi demais, fizemos ainda “Ritual dos Sádicos”, que ficou presa. Se na época essa fita saísse, eu me tornaria o Silvio Santos do cinema nacional. Depois disso, só deu para ele fazer mais um roteiro para mim que foi “Finnis Homminis”, que não tinha nada com o terror.
Claquete: Como o senhor define o Lucchetti?
José Mojica Marins: O Lucchetti não fuma, não bebe, não tem vícios. É muito legal nessas coisas. Só tem o vício de escrever. Escreve, escreve, escreve... Ele é um homem versátil para escrever. Não é um homem de briga. Lucchetti é um homem tímido, aliás tímido demais.

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