terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Rebu ou Por que não existem mais novelas assim? (uma jornada afetiva)

Raul Seixas virou um ícone brasileiro. Na música é o que Che Guevara representa na política. No Brasil, virou figura mítica desde os anos '70, quando abandonou a turma baiana dos Panteras (o primeiro disco do cantor, emulando descaradamente Beatles e Elvis Presley data de 1967 e é uma pérola) e enlaçou-se artisticamente com Paulo Coelho, na época um poeta e músico alternativo. Em 20 anos de óbito, quantos não foram os artistas que o homenagearam (Zeca Baleiro compôs "Toca Raul!" em um de seus últimos discos) e quantas não foram as homenagens e caças-níqueis disponíveis? Confesso que durante minha adolescência, o escutava com regularidade e o reconhecia como sendo o maior compositor roqueiro brasileiro. Não estou aqui hoje diminuindo sua importância, apenas o enxergando de um novo e esquecido prisma. Convencionou-se denominar o músico somente através de suas composições mais famosas e seu lado humano e complexo foi deixado de lado.

No livro O Baú do Raul, editado por Kika Seixas (viúva do músico baiano) em 1998, descobrimos que Raul era um homem repleto de neuroses - uma de suas maiores dificuldades, por exemplo, era não defecar corretamente, por acreditar que se depositasse suas nádegas no espaço reservado, alguma criatura sairia das águas para lhe adentrar! - mas também sensível e pai carinhoso. Qual a importância do músico hoje? E qual o motivo desta postagem? Em pleno 2009, quando televisão brasileira deixou de ser sinônimo de qualidade e passou apenas a ser uma arma mal utilizada por altos executivos e patentes renegando qualidade em sua grade de programação, é tempo de olhar para trás e reconhecer que a TV (especificamente a Rede Globo de Comunicação) era melhor no passado.

Esta constatação é de um jovem de 25 anos, que cresceu acreditando no poder da TV e na grade da Globo como sendo uma das melhores (falta de opção em acreditar no contrário?). Quantas não são as pessoas que me conhecem que dizem que cheiro à naftalina por só gostar de velharias? Quem está na faixa dos 35-40 anos, reconhece que a Globo era mais ousada em suas novelas, por exemplo. Buscava sempre se renovar, com autores estreantes e histórias relevantes (hoje, pelo contrário, o que existe é apenas uma requentada de clichês e um vai e vem indigesto de atores da casa, nos passando a errada impressão de estarmos acompanhando as mesmas tramas, independente do tempo passado). Aqui, abro um parêntese: quando era criança, uma das minhas maiores alegrias era poder acompanhar novelas e discutir com minha falecida avó os aspectos antigos e novos da teledramaturgia brasileira. Nunca conheci até hoje alguém que fosse tão expert em novelas como minha avó. Era bastar eu dizer o nome de uma novela que ela vinha com toda sua ficha técnica e sua história. Assim, eu colocava minha cabeça para imaginar, na expectativa de poder acompanhar um pouco de suas lembranças.

Raul Seixas, Rede Globo, novela, memória afetiva. Qual é o enlace disso tudo? Alguns dias atrás, com a cabeça vazia procurando o que fazer e pesquisando baboseiras na internet (esta ferramenta maravilhosa para os saudosistas precoces, como eu), esbarrei com a trilha sonora de uma novela que marcou época e fez estardalhaço na época da exibição. Em plena ditadura militar brasileira, Braulio Pedroso, recorrente autor de novelas da Rede Globo dos anos '70, brindava espectadores no horário das dez da noite (sim, a Globo tinha duas faixas nobres de novela - uma às 20 e outra às 22 horas) com uma trama, no mínimo, ousada. Bete Mendes estreava em televisão e Ziembinsky interpretava seu último papel em novelas.

O REBU narrava a história de uma festa da alta sociedade e de um crime. No primeiro capítulo da novela, um corpo aparece boiando numa piscina - não se sabe se é homem ou mulher - e a polícia investigando o patriarca da mansão em busca de informações. O legal da trama, pelo que pude pesquisar, era acompanhar tudo em flashback e de um prisma cada dia diferente. Era um verdadeiro samba-do-crioulo-doido. Num dia a pessoa aparecia morta e no outro ela estava vivinha da silva! Os diálogos eram carregados e existiam personagens-tabu (o vivido por Buza Ferraz era um homossexual enrustido que mantinha um caso com o dono da mansão da festa - mote que desencadeia o assassinato).



A trilha sonora era outro achado: toda composta por Raul Seixas e Paulo Coelho. BINGO! Não poderia existir dupla melhor para compor músicas para os personagens. O cantor aparece em três momentos inspirados: "Como vovó já dizia", clássica absoluta, abre o disco de forma apologética, traçando a aura libertária da novela. "Água Viva" e "Canção para Laio" ilustram personagens complexos (a minha mente fica imaginando um casamento harmonioso entre canção e imagem, coisa quase impossível de conceber neste caso). Todas as outras canções que fazem parte da trilha sonora nacional da novela foram compostas pela dupla, com merecido destaque a "Por que?", na voz potente de Sônia Santos e "Planos de Papel", no timbre quase irreconhecível de Alcione, estreante à época. A cereja no topo do bolo é a canção "Catherine", instrumental crescente repleto de suspense e tristeza.



Acabei achando no Youtube alguns trechos da novela. Reparem o tom da narrativa, a maneira livre e naturalista de interpertação e, principalmente, as músicas que acompanham as imagens. Também achei um podcast de um jornalista da UOL News que comenta sobre a novela ( http://www.telehistoria.com.br/thnews/podcast_integra.asp?idColuna=6255). Fiquei sabendo que esta é uma das únicas novelas que a Globo guarda inteira em seu acervo. Poderia deixar de ser mesquinha e lançar num box caprichado em DVD, restaurado - a novela teve "apenas" 112 capítulos. O que ela está esperando, hein?




Um comentário:

Anônimo disse...

Oi Valtim, passei p/ fazer uma visitinha. Gostei do seu estilo, apesar de ter certas coisas q não concordei mto. Mas desejo sucesso p/ seu blog. Bjs,