quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre Walter Queiroz

Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 21 de agosto de 1977

Impossível negar: os baianos não são apenas talentosos, mas organizados. E solidários. Só isso para explicar a permanente e múltipla presença de compositores e intérpretes baianos no cenário nacional. Em várias levas, os baianos estão sempre chegando ao Sul maravilha, onde, em tempo reduzido, conseguem fazer seus discos. Mais quatro lps de baianos, na praça, todos trabalhos bastantes pessoais e sinceros. Discutíveis, talvez, os resultados, não se pode duvidar da essência. Walter Queiroz acaba agora de fazer seu primeiro lp  Filho do Povo", (Phillips, 6349332, julho/77). Excelente letrista, cantor razoável, é outro baiano que veio para o Rio há 5 anos, pelas mãos de Roberto Santana, que lhe deu uma boa ajuda no início da carreira, incluindo, por exemplo, seu "Filho da Bahia", na voz de Fafá de Belém (então estreando na gravação) na trilha sonora de "Gabriela". Parceiro de Cesar Costa Filho em algumas de suas melhores músicas - "Tesoura Cega" (gravação de Beth Carvalho, uma das 10 melhores músicas de 75), "Dose Pra Leão" ("Anastácio"), "Samba Enredo Para Um Sambista Morto", acumulando algumas vezes letra e música, como em "Feijãozinho com Torresmo" (a melhor faixa do lp de Maria Creuza, RCA, 76), Walter Queiroz havia estreado, como cantor, num compacto simples, que apesar de uma boa canção ("Ensopado de Tristeza") não chegou a acontecer. Agora, reunindo os sambas já conhecidos - com outros novos (ou ao menos, até agora inéditos em gravações), como "Maravilha", "Pode Entrar", "Tudo Debaixo do Banco", "Meu Papagaio Falou" e "Noturno dos Abandonados", "Africana Re Re" e "Maculele" (estas duas em parceria com Paulo Levita), Walter faz um lp estimulante, bem acabado, com texto de contracapa de Jorge Amado e que se inclui entre os bons discos da temporada.

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Em tempo: O disco Filho do Povo, que esbarrei nesta semana, é um clássico da discografia nacional. Escutar e entender toda a complexidade das canções é uma maravilha que não tem preço. Aliás, tentar redescobrir esta pérola e lhe dar o devido valor é uma coisa que devemos fazer quase sem pensar. Walter Queiroz é, sem dúvida, um dos melhores sambistas e músicos que o Brasil já teve. O homem é tão sensacional e esquecido que hoje ninguém o cita como importante. Foi tema de abertura de novela (Cambalacho - Silvio de Abreu, 1986) e hoje está relegado. Não cometa o erro de não conhecê-lo.

Download: Filho do Povo (Phillips - 1977)

http://depositfiles.com/pt/files/mne7cstme

http://rapidshare.com/files/319571796/oz_-_filho_do_povo_-_philips_6349.332__1977_.rar




quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Rapidinhas (x2)

SENSAÇÕES (Barulhos, Canções)
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Algumas canções que precisam ser ouvidas por quem me lê:

Ash (do disco The A-Z Series)

- Joy Kicks Darkness - http://www.youtube.com/watch?v=4gNpw_u_pU4

- The Dead Disciples - http://www.youtube.com/watch?v=lDzhSmRepmc

- Space Shot - http://www.youtube.com/watch?v=5K06oxJbI6Y


The Irrepressibles* (do disco Mirror, Mirror)

*uma espécie de Antony and the Johsons mais obscuro e menos melancólico

- My Friend Jo

- In Your Eyes

- Anvil






Rapidinhas

CINEMA

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Seja em 3D ou em 2D, o filme Avatar continua sendo um maravilhoso caso de enganação. James Cameron - que portava uma cabeleira horrenda no último Globo de Ouro - continua fazendo o que faz melhor, ou seja, investindo na tecnologia para encher os olhos dos outros e esquecendo que, para se ter um bom filme, o roteiro ainda é o mais importante. É uma sessãozona da tarde tediosa, este novo filme do diretor. E que dá uma dor de cabeça dos diabos.

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Sandra Bullock agora quer convencer os críticos de que é uma atriz de respeito. Ou é o público que quer que a Academia reconheça a atriz? O fato é que, surpreendentemente, a cada nova temporada de filmes, uma atriz modorrenta (como aconteceu antes com Julia Roberts e com Reesse Whiterspoon, só para ficar nos exemplos mais recentes deste século) ganha o Oscar. Se analizarmos friamente e mercadologicamente, a eterna Miss Simpatia merece um reconhecimento, sim. Afinal, está com quase 50 anos e nunca foi levada a sério. E a grande "surpresa" desta temporada de verão nos Estados Unidos é um filme chapa-branca para toda a família - justamente o longa em que ela mostra a que veio.

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Isso não é grande coisa, no final das contas. O filme The Blind Side (O Lado Cego, em tradução literal) é o típico filme que enaltece algumas características do público médio americano, como valores familiares e mensagens edificantes. Mais ainda: tem na trama aquilo que os americanos mais gostam, ou seja, futebol americano (que, com exceção da maravilhosa série Friday Night Lights, é maçante de acompanhar). O filme é bem feitinho, mas é irritante na eterna pintura do americano que vence todos os obstáculos para alcançar seus objetivos. Ainda por cima, a família retratada no filme é exemplar; não existe briga e tudo é acatado sem contestação. Ah, existe a cena do almoço de Ação de Graças também. É como se a socialite vivida por Sandra Bullock fosse ativista de uma campanha - "Adote um garoto negro e seja feliz!" - coisa esta que pode até virar moda entre as emergentes brasileiras. Como diria uma famosa aqui do Brasil, a única coisa que podemos dizer após uma sessão deste filme é... Ai, que loucura!

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O melhor filme da temporada, até agora, para mim, é Up in the Air, que no Brasil recebeu o estúpido título Amor sem Escalas (por quê é que os tradutores são fixados na palavra "amor"?). George Clooney finalmente deixou de ser o canastrão-mor do cinema (passando o posto para o boa-praça simpático Gerard Butler) para entregar um papel sério num filme agridoce, que já nasceu clássico. Ele interpreta Ray, um homem que trabalha em uma empresa especializada em demitir funcionários ao redor do país. Por passar a maior parte dos dias do ano viajando, ele é incapaz de manter um relacionamento sério por muito tempo - ele, inclusive, ministra palestras enaltecendo os "valores da solidão" - e sua família não o considera um membro ativo. No meio de todos os vôos e check-ins, conhece uma mulher desprendida, solitária como ele, e, inevitavelmente, se envolve com ela.

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O reinado de Ray cai quando uma jovem prepotente chega à empresa com uma nova tecnologia em ascensão. Ele é obrigado a rever seus conceitos quando é encarregado de viajar com a moça pelos Estados Unidos para que esta possa implantar o sistema (algo como um "afastamento à distância"), o que o tiraria de seu cargo e o faria perder o emprego - constatação maior do fracasso da vida do protagonista. O roteiro, assinado por Jason Reitman (que revitalizou os filmes-teen com Juno, de 2007), privilegia os contatos íntimos e sociais dos protagonistas. Chega a surpreender a atuação de Anna Kendrick, perfeita no papel da jovem insegura que age por impulso e que, no primeiro grande "sapo", entra em parafuso. A espontaneidade de todo o filme é o que transparece para o espectador, que, não raro, se emociona e se enxerga em diversas situações vividas pela tríade do longa metragem. É sensível, verdadeiro, cínico, cruel, humano.

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domingo, 3 de janeiro de 2010

MAIÚSCULO


Como é maiúsculo
O artista e a sua canção
Relação entre Deus e o músculo
Que faz poderosa a sua criação
Pensando bem
É um mistério
Como é misterioso o coração
Como é minúsculo
O olhar de quem vive no escuro
Um sujeito malvado e burro
Alguém machucado como não ter um bem
Não tem porém
Mas tem um tédio
Não ser vítima do assédio de ninguém
Quase não dorme
Vive ao avesso
Medo conhece bem
Sem endereço
Como é que pode
Não fazer mal também

Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó

Solto meus bichos
Pelas músicas quando me aflijo
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer correr
Pois perdeu todo sentido de viver




- Sérgio Sampaio -